Quando a democracia perde o consenso: apontamentos sobre a crise de hegemonia e a crise de representatividade

além daquilo que se considera essencialmente cultural como seria com Carnaval ou o machismo, a forma com que os referidos sistemas sociopolíticos se imbricam nas subjetividades dos sujeitos é estratégica em desarticular a forma com que se identificam com seus respectivos representantes

O cenário político brasileiro da década de 2010 é marcado por instabilidades institucionais e sociais que podem ser observadas através de uma sucessão de escândalos e/ou falhas dos governantes. A compreensão desse período requer investigar as engrenagens estruturais que organizam as relações entre o Estado e a sociedade civil, que pode ser interpretado a partir de duas categorias teóricas: a crise de hegemonia e a crise de representatividade.

Figura 1 - Imagem da ex-presidenta Dilma Rousseff no dia de seu depoimento no processo de impeachment.

Fonte: Geraldo Magela/Agência Senado, 2016.

Inicialmente, cumpre resgatar o conceito de hegemonia, que trata de lideranças morais, culturais e ideológicas que legitimam um projeto de poder, e que faz com que a sociedade aceite os seus anseios e reproduza o sistema espontaneamente. Nesse sentido, uma crise de hegemonia trata do rompimento dessa articulação consensual, ou seja, é o momento que quem domina o sistema perde o poder de produzir consenso das grandes massas, abrindo espaço para o surgimento de fenômenos políticos patológicos e instáveis (Coutinho, 1989; Gramsci, 2007).

Paralelamente, o sistema político passa a sofrer os efeitos da crise de representatividade, momento em que os cidadãos perdem a confiança em seus dirigentes e nas instituições estatais. Nesse processo, a população deixa de se reconhecer e identificar com os partidos políticos, com as instâncias de governo passando a enxergá-los como entidades ineficientes e isoladas do interesse público (Avritzer, 2016; Rosanvallon, 2007).

Tendo em vista que esses fenômenos ocorrem em conjunto, há um processo no qual a sociedade deixa de acreditar no projeto de país ou modelo econômico oferecido pelos governantes (crise de hegemonia). Habitualmente, a população recorria às instituições, como partidos políticos ou congresso, para dialogar e buscar soluções. Entretanto, nesse contexto, os cidadãos passaram a desprezar esses canais (crise de representatividade), resultando em uma perda de capacidade do Estado de convencer e liderar a população, instaurando uma espécie de vácuo de poder.

A materialização da junção dessas crises pode ser observada no cenário brasileiro por intermédio das jornadas de Junho de 2013, momento em que as relações entre Estado, sociedade e democracia no país se alteraram (Teixeira, 2018).

O segundo mandato de Dilma Rousseff (2015-2016) representa um importante estudo de caso para compreender a incidência simultânea dessas crises (de hegemonia e de representatividade) na democracia brasileira. Reeleita em 2014, em um contexto de forte polarização política, a presidenta enfrentou, nos anos seguintes, uma combinação de recessão econômica, aumento do desemprego, desgaste provocado pela Operação Lava Jato e crescente dificuldade de articulação com o Congresso Nacional, como explica o Observatório de Economia Contemporânea da Unicamp:

No plano econômico, o crescimento marcante na década de 2000 deu lugar a uma desaceleração gradual seguida de forte recessão em 2015 e 2016, acompanhada de agudo aumento do desemprego (de 4,9% em fins de 2014 para 11,2% em maio de 2016 quando a presidente deixa o cargo). Já na esfera política, o cenário das eleições altamente polarizadas de 2014 se deteriorou e assistiu a mobilizações contra Dilma Rousseff e o PT, para além da relação cada vez mais conflituosa entre o Poder Executivo e o Legislativo, capitaneado por Eduardo Cunha. O desfecho desse quadro foi a deposição da mandatária via um contestado processo de impeachment, tendo como alegação o discutível argumento de "pedaladas fiscais" (2019).

Nesse cenário, observa-se uma crise de hegemonia que, como elucidado anteriormente, é caracterizada pela perda da capacidade do governo de construir consenso em torno de seu projeto político. Conforme a perspectiva gramsciana citada inicialmente, a hegemonia depende da direção política e moral exercida por meio do convencimento social: quando essa capacidade se enfraquece, intensificam-se os conflitos e a instabilidade institucional. Paralelamente a isso, ainda sob o viés dos conceitos trazidos no presente estudo, consolidou-se uma crise de representatividade, evidenciada pela crescente desconfiança da população em relação aos partidos políticos e às instituições democráticas, percebidas como incapazes de responder às demandas sociais.

O isolamento político da ex-presidenta se intensificou à medida que o processo avançava na Câmara dos Deputados, sendo impulsionado pela perda de suporte de partidos de grande representatividade na época, o que inviabilizou a manutenção da governabilidade (Senado Federal, 2016). Em outros termos, o rompimento da base de apoio do governo no Congresso agravou, consequentemente, a crise política e reduziu a governabilidade, culminando no processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2016. Independentemente das diferentes interpretações sobre esse episódio, ele simboliza o aprofundamento simultâneo da crise de hegemonia, expressa na perda de legitimidade política e na crise de representatividade, ao passo que foi um período marcado pelo enfraquecimento da confiança entre Estado e sociedade. Votar de tempo em tempos parecia não contemplar os reais interesses da população (Cremonese, 2019, p. 76).

Um elemento importante a ser observado nesse contexto de crises é a elevação da violência política de gênero, inclusive de forma digital, como uma ferramenta de descredibilização e afastamento da identificação de uma mulher no espaço político do seu eleitorado. Essa modalidade de violência remete tanto ao âmbito parlamentar como a outras posições de poder e liderança em áreas diversas, e que já é reconhecida legislativamente como um crime pela Lei 14.192/2021, apesar de a normativa não impeça o retrocesso trazido pela misoginia (Xavier; Costa, 2026).

A trajetória tomada pelo capitalismo em um momento de crise é voltada para o estabelecimento da sua permanência, porém, algo que deve ser destacado é o quanto o gênero em si e as relações e papéis ao entorno dele representam um ponto importante nesse processo. Como destaca Bhattacharya (2019, p. 35), em somatória ao neoliberalismo, e

Na atual crise do capital, o gênero é arma ideológica essencial para dissimular as linhas de fraturas de classe. O aumento das figuras autorizadas que fazem defesas que desculpam os estupros, a avalanche de decretos e leis que atacam os direitos reprodutivos e os direitos das pessoas LGBTQ, o slut shaming, a culpabilização das vítimas, todos estes elementos são as diferentes formas de reorganizar a feminilidade e invocar a mítica da família sustentador-doméstica, alimentando expectativas de gênero e de modelos irrealistas para homens e mulheres da classe trabalhadora.

Sob essa perspectiva, é válido ponderar que, além daquilo que se considera essencialmente cultural como seria com Carnaval ou o machismo, a forma com que os referidos sistemas sociopolíticos se sobrepõem nas subjetividades dos sujeitos é estratégica em desarticular a forma com que se identificam com seus respectivos representantes. Destaca-se, ainda, o quanto a violência tem nexos praticamente inerentes com as pautas mencionadas, e em um âmbito político, é mobilizada na manutenção do sistema capitalista e na deturpação da democracia e do efetivo acesso à justiça, seja por meio de informação ou identificação.

O estudo do governo Dilma Rousseff demonstra que a democracia brasileira enfrentou, simultaneamente, uma crise de hegemonia, marcada pela perda de consenso político, e uma crise de representatividade, caracterizada pelo enfraquecimento da confiança entre sociedade e instituições. Nesse contexto, a violência política de gênero tornou-se um elemento relevante do debate público, revelando que desigualdades estruturais também influenciam o funcionamento da democracia. Assim, compreender esses conceitos permite interpretar esse período para além das disputas partidárias, contribuindo para uma reflexão sobre os desafios da democracia brasileira contemporânea, especialmente sobre aquilo que concerne às representações identitárias.

Referências bibliográficas

AVRITZER, Leonardo. Impasses da democracia no Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

BHATTACHARYA, Thiti. Explicando a violência de gênero no neoliberalismo. Tradução de Laura Viríssimo. Marx e o Marxismo, v. 17, n. 12, jan/jun 2019.

COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. Rio de Janeiro: Campus, 1989.

CREMONESE, Dejalma. A crise política no Brasil e o impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Campos Neutrais - Revista LAtino-Americana de Relações Internacionais, v. 1, n. 3, p. 70-87, set/dez, 2019.

DE PAULA, Luiz Fernando; MOURA, Rafael. Consequências econômicas da Operação Lava-Jato. Observatório da Economia Contemporânea, Instituto de Economia, UNICAMP, 2019. Disponível em: https://www.eco.unicamp.br/observatorio-da-economia-contemporanea/produtivo-e-tecnologico/consequencias-economicas-da-operacao-lava-jato. Acesso em: jul. 2026.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere, volume 3: Maquiavel. Notas sobre o Estado e a política. Edição e tradução de Carlos Nelson Coutinho; co-edição de Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

LOPES, Joyce Cristine Silva. Dilma Rousseff e o fim do pacto social de 2015 a 2016. In: 32º Simpósio Nacional de História - ANPUH Nacional: Democracia e direitos humanos: Desafios para uma história profissional, 2023, São Luís, Anais do 32º Simpósio Nacional de História. São Luís, 2023.

ROSANVALLON, Pierre. La contrademocracia: la política en la era de la desconfianza. Tradução de Gabriel Zadunaisky. Buenos Aires: Manantial, 2007.

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