Imaginando futuros

Te desafio, caro leitor, a deixar a distopia para o lado e pensar em um futuro brasileiro fantástico. Já temos histórias maravilhosas: inventamos o avião, o chuveiro elétrico, o orelhão, o pix, a urna eletrônica… criamos um tratamento para queimaduras usando pele de tilápia, o soro antiofídico, desenvolvemos nossa própria vacina no meio de uma pandemia. O que falta para sermos referências científicas? O que deve ser feito para chegarmos lá?

Acho que não sou a única a crescer olhando para um futuro distante. Tanto temporal quanto geograficamente, sempre fui obcecada por ficção científica e gostava de me perder na tela, imaginando-me no espaço sideral, ajudando os mocinhos norte-americanos a lutar contra uma ameaça interestelar. Cresci fantasiando sobre um futuro fantástico e emprestado, bem longe da realidade brasileira… Afinal, apesar da exceção do E.T. de Varginha, eu sabia que se algum dia uma nave-mãe pousasse na Terra, ela certamente não escolheria o Brasil. Os círculos nas plantações pareciam bem mais estilosos nos milharais estadunidenses.

Até hoje, admito, minha percepção do futuro é pintada por todos os blockbusters[1] e livros estrangeiros que li sobre o amanhã. Mesmo pensando em um futuro não tão distante, lampejos de distopias estrangeiras me tiram o brilho dos olhos quando volto o olhar para o agora. Lembro de “O Conto de Aia” (1985), de Margaret Atwood (1939-), toda vez que me deparo com mais uma matéria sobre o PL 1904/2024, conhecido como “PL do Estuprador”[2]. Ontem, li uma notícia sobre garotas se automutilando para uma grande audiência digital no Discord. Pensei em me distrair reassistindo “Black Mirror”[3], porém me deparei com Daniel Kaluuya (1989-) fazendo a mesma coisa para bancar a família. Faço minha colinha para as eleições de 2026 enquanto assisto “Uma Batalha Após a Outra” (2025), e lembro que, nos Estados Unidos, imigrantes brasileiros estão com medo de saírem para votar e serem detidos injustamente pelo ICE.

A ficção científica sempre foi um gênero muito crítico: pensar no futuro, no diferente, mesmo que na metáfora de alienígena ou robô, exercita tanto no leitor quanto no escritor bastante empatia, alteridade e senso crítico. Ademais, ao abordar política, ecologia, a psiquê humana, entre outros amplos assuntos, o sci-fi[4] também esconde suas boas cutucadas do presente em fantasias sobre o futuro — e por ser tão generalista em seus temas, acaba acertando até realidades longe das que seus criadores surgiram.

É difícil não reconhecer os perigos de uma ditadura, por exemplo, ao ver a Princesa Leia de “Guerra nas Estrelas” (1977) desolada após o Império Galáctico explodir o planeta em que cresceu. Embora o filme fosse originalmente uma crítica a Guerra do Vietnã, paralelos entre as figuras do Imperador Palpatine, manipulando tudo pelas sombras, e generais brasileiros durante nossa ditadura de 1964, acobertando seus crimes dentro da constituição, não são impossíveis ou absurdos de se imaginar. Sim, nos identificamos muito com essas obras estrangeiras, mesmo com todas as suas tecnologias impossíveis ou seus personagens fantásticos com nomes como “James” e “Luke”. Mas, afinal, cadê a ficção científica brasileira?

Você sequer sabia que existe sci-fi no Brasil? Pois é. Temos sim, muitos, e uma produção histórica — literalmente centenária. Antes do que foi chamado de “Geração GRD” (em breve vamos discutir esse nome), considerada o primeiro momento “oficial” da ficção científica, já haviam obras da chamada proto-FC[5], como “Doutor Benignus” (1875) de Augusto Emílio Zaluar (1826-1882), “O Imortal” (1882) de Machado de Assis (1839-1908), e “As aventuras de Tibicuera” (1937) de Érico Veríssimo (1905-1975). Foi um período extenso, que perpassou desde o romantismo nacionalista até a segunda fase do modernismo brasileiro, crescendo concomitantemente à literatura brasileira que tentava encontrar sua própria identidade… Ou melhor, brasilidade.

Figura 1 - Exemplo de proto-FC brasileira até na literatura de cordel, com “O homem que subiu em aeroplano até a lua” (1918), de Leandro Gomes de Barros (1865-1918).

Fonte: Repositório Rui Barbosa de Informações Culturais, 1947.

Apesar de ainda não fazerem parte do período que rotulou livros desse estilo como “ficção científica”, já estavam abordando algumas das temáticas favoritas do gênero, entre viagens no tempo, tecnologias milagrosas e extraterrestres. Inclusive, apesar de fazer parte do século de literatura proto-FC, aquela que é considerada a primeiríssima obra de sci-fi nacional (e para alguns, a primeira latino-americana) é a já mencionada “Doutor Benignus”. O livro de Zaluar trouxe uma aventura inspirada nas histórias de Júlio Verne, em que o personagem-título tenta encontrar, nas matas de Minas Gerais e Goiás, a origem da raça humana, e até teoriza sobre a possibilidade de outras vidas inteligentes para além dos cosmos.

Esse romance, publicado inicialmente em folhetins do jornal O Globo, trouxe “o evolucionismo como parte de um discurso progressista que enaltece a ciência” (Waizbort, 2012, p. 75), e tentava afirmar com convicção o potencial científico do Brasil, e a importância de indagar sobre o mundo olhando não apenas às explicações religiosas. Como descrito por Ricardo Waizbort em seu trabalho sobre a obra:

Para além de todas as dúvidas sobre a apreensão do sistema científico de Darwin por Zaluar no romance, pela primeira vez um escritor, por merecido que seja o seu esquecimento dos compêndios de história da literatura, escreveu afirmativamente sobre a teoria da evolução. Embora lado a lado de doutrinas abertamente religiosas, essa exposição certamente contribuiu para propagar a ideia de que a espécie humana era o resultado de um processo natural de transformação das espécies. A literatura, como se sabe, não precisa ter nenhum compromisso com a realidade, nenhum compromisso com os referentes que o autor vai buscar no mundo para compor sua narrativa (Waizbort, 2012, p. 75).

Sabemos, porém, que a ciência não é neutra. Apesar da bonita mensagem de que ela tem seu lugar no Brasil, de que nosso país oferece um ambiente fértil para investigações sobre a origem da vida e para o progresso científico, o livro recai profundamente em estereótipos dos povos indígenas, e utiliza a própria teoria darwiniana para afirmar a suposta superioridade da raça branca. Toda a “aura revolucionária” do gênero derrete-se quando percebemos, de novo, que a literatura imagina futuros a partir de seu presente. E se, no seu presente, você é preconceituoso? Bem, isso muito provavelmente será refletido em seu livro.

Em outro momento, algo parecido também pode ser visto na Geração GRD, conhecida como a primeira onda de sci-fi brasileiro. O título se dá devido à coleção “Ficção Científica GRD” (publicadas entre 1958 e 1966), cujo nome, por sua vez, refere-se às iniciais do criador da editora GRD, Gumercindo Rocha Dorea (1924-2021). Esse período, entre 1958 e 1972, foi marcado pelas primeiras antologias de obras traduzidas do gênero para o Brasil, bem como um simultâneo maravilhamento e assombro pelos avanços tecnológicos da época. Como descrito por Roberto Causo, escritor e pesquisador de sci-fi, para o podcast Lore Científica:

A bomba atômica, o satélite artificial, o submarino nuclear, o avião supersônico, foguete. Tudo isso estava na ordem do dia e coberto pelos jornais. A ficção científica vem do rastro dessa percepção, de que o mundo estava mudando muito rapidamente (Causo, 2025b, 02min03s - 02min22s).

Em sua investigação sobre a primeira onda de ficção científica brasileira, Rodrigo Christofoletti afirma que as obras desse período se assemelhavam à chamada “New Wave” inglesa[6], “mais por coincidência do que por influência direta: o humor, a rejeição à tecnologia, a postura mais à esquerda no plano político e mais satírica” (2017, p. 221). Quem diria, que em meio a ditadura militar, esse tipo de literatura estaria sendo publicada?

Figura 2 - Exemplar da Coleção Clássica de Ficção Científica da GRD, “As noites marcianas de Fausto Cunha” (1960). Coletânea de histórias.

Fonte: Rafael Michalski, 2017.

Figura 3 - Exemplar da Coleção Clássica de Ficção Científica da GRD, “Antologia Brasileira de Ficção Científica” (1961). Como o título bem diz, trata-se de uma antologia.

Fonte: Rafael Michalski, 2017.

Figura 4 - Exemplar da Coleção Clássica de Ficção Científica da GRD, “Diálogo dos Mundos de Rubens Teixeira Scavone” (1961). Coletânea de histórias.

Fonte: Rafael Michalski, 2017.

Bem, lembra que comentei que iríamos falar do nome “GRD” eventualmente? Chegou a hora. Antes de publicar a primeira coleção “Ficção Científica GRD”, as “Edições GRD” eram conhecidas por divulgar obras de e sobre Plínio Salgado (1895-1975), criador do movimento integralista brasileiro — que, para quem não sabe, é um partido político histórico, de cunho nacionalista e de extrema-direita. O próprio Gumercindo Rocha Dorea foi, até falecer em 2021, Presidente de Honra da instituição.

Existe, então, esse paradoxo na ficção científica. Sempre tão interessada no diferente e no revolucionário, e ao mesmo tempo, muitas vezes atrelada a ideologias conservadoras e preconceitos. E isso não é algo que ficou para a história: é só olhar para o que aconteceu com a pílula vermelha de “Matrix” (1999) — idealizada por duas mulheres trans[7], incorporando uma metáfora sobre sair dos moldes impostos pela sociedade para enxergar a verdade do mundo… Agora, é sinônimo de um movimento extremista, machista, homofóbico e transfóbico.

No Brasil, vemos um maior desvencilhamento das ideologias de direita a partir da segunda onda de ficção científica, muito forte na década de 70 e crescendo ainda mais com a abertura “lenta, segura e gradual” da diatura militar, tendo seu início oficial em 1983. Aqui, houve “um ciclo de utopias e distopias políticas e ecológicas preocupadas com a denúncia do regime militar (1964-1985), da tecnocracia e das consequências desumanizadoras da modernização do país” (Causo, 2013, p. 8). A partir disso, tivemos uma terceira onda, marcada pelo self-publishing[8] digital e a globalização proporcionada pela internet, e atualmente estamos numa quarta onda, em que, finalmente, a ficção científica começa a olhar com carinho para sua brasilidade. É o caso do premiado livro de contos “Gótico Nordestino” (2022), de Cristhiano Aguiar (1981-), e do afrofuturista finalista do prêmio Jabuti “O Último Ancestral” (2021), de Alê Santos (1986-), por exemplo.

Acontece de haver uma série de movimentos espalhados pelo brasil afora que… que eu chamei de uma ficção científica que busca um regionalismo valorativo, né? Não é aquele regionalismo antigo, do século dezenove, do século vinte. Então surgiu o amazofuturismo, que é da amazônia, da região amazônica, teve o cyberagreste, né? Depois surgiu o sertãopunk, e imagino que existam outros aí (Causo, 2025, 07min04s - 07min30s).

Esse ano, a editora Aleph, uma das principais responsáveis pela distribuição de ficção científica no Brasil hoje em dia, finalmente publicará autores brasileiros. Em mais de 40 anos de história, a editora só agora começou a fitar as produções brasileiras com bons olhos, e publicará autores que vêm escrevendo desde a terceira onda do gênero, como Lady Sybylla (1980-). O que será que mudou? Talvez, a realidade brasileira esteja tão maluca, que finalmente a Aleph enxergou um potencial para novas histórias imaginando nossos futuros… Não sei se isso me deixa nervosa, ou esperançosa.

Bem, te desafio, caro leitor, a deixar a distopia para o lado e pensar em um futuro brasileiro fantástico. Já temos histórias maravilhosas: inventamos o avião, o chuveiro elétrico, o orelhão, o pix, a urna eletrônica, criamos um tratamento para queimaduras usando pele de tilápia, o soro antiofídico, desenvolvemos nossa própria vacina no meio de uma pandemia. O que falta para sermos referências científicas? O que deve ser feito para chegarmos lá? O que nós, como cidadãos, podemos fazer para garantir nosso futuro? O que devemos demandar, com cartazes e gritaria, aos nossos políticos?

Não vou lhe oferecer minhas respostas. Deixo aqui, apenas, o convite: imagine novos futuros, que te encham de encanto, que te excitem. Leia autores brasileiros, histórias brasileiras. Indague sobre o presente, imagine soluções para o agora, imagine a dor da luta e a exaltação da conclusão. Escreva, compartilhe, publique suas fantasias. Inspire e seja inspirado por novos autores, pela ciência, pela tecnologia, pelo coletivo. Crie comunidade, e acima de tudo, perca o seu medo de pensar no amanhã.

Notas de rodapé

[1] Traduzido do inglês literalmente como “arrasa-quarteirões”, blockbusters são filmes de grande sucesso de bilheteria.

[2] Projeto de lei elaborado pelo deputado Sóstenes Cavalcanti em 2024, que continua tramitando na Câmara dos Deputados, mas com votação congelada. O projeto equipara o aborto realizado após as 22 semanas de gestação ao crime de homicídio simples.

[3] Série de televisão antológica britânica de ficção científica, criada em 2011 por Charlie Brooker (1971-). Atualmente possui 7 temporadas e um filme, com a possibilidade de novas temporadas no futuro. O título “Black Mirror” traduz para o português como “espelho preto”, e faz alusão à tela escura e reflexiva de dispositivos eletrônicos quando desligados.

[4] Sinônimo de ficção científica, abreviação do inglês “science-fiction”.

[5] Proto-ficção científica, em que “proto” é um prefixo de origem grega usado para indicar a forma mais antiga, e FC é a abreviação de ficção científica. Ou seja, o proto-fc faz referência a um gênero literário anterior ao que, atualmente, chamamos de ficção científica.

[6] O movimento literário “New Wave” (em português, “nova onda”) de ficção científica surgiu nas décadas de 60 e 70 na Inglaterra, e era caracterizado por um elevado grau de experimentação, tanto na forma como no conteúdo.

[7] “Matrix”, bem como suas sequências “Matrix Reloaded” (2003) e “Matrix Revolutions” (2003), foram dirigidos e idealizados por Lana (1965-) e Lilly (1967-) Wachowski. Lana se assumiu como mulher trans em 2008, e Lily se assumiu publicamente em 2016.

[8] Termo traduzido do inglês como “autopublicação”, é o processo em que o próprio autor gerencia e financia a publicação de seu livro, sem depender de uma editora tradicional.

Referências bibliográficas

BARROS, Leandro. O homem que subiu de aeroplano até a lua. Recife: Cruzeiro, 1947. 16 p. Acervo digital: Repositório Rui Barbosa de Informações Culturais (RUBI), Casa de Rui Barbosa. Disponível em: <https://rubi.casaruibarbosa.gov.br/handle/20.500.11997/1893>. Acesso em: 26 ago. 2026.

CAUSO, Roberto. Ondas nas Praias de um Mundo Sombrio: New Wave e Cyberpunk no Brasil. 2013. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em: <https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8147/tde-12032014-123051/> . Acesso em: 25 ago. 2026.

CAUSO, Roberto. Sci-fi & Ciências: deu a louca no cientista!. Entrevista concedida a Giulianna Mazzali, Iris Italo Marquezini e Larissa Mateus. Lore Científica, 10 jun. 2025b. Disponível em: <https://open.spotify.com/episode/69zfU5ORI2tlC9ctl2eRGf?si=IynOT5JDSPi2lVjfYCXhDw>. Acesso em: 25 ago. 2026.

CAUSO, Roberto. Sci-fi & Fandom: os fãs estão sozinhos no espaço?. Entrevista concedida a Giulianna Mazzali, Iris Italo Marquezini e Larissa Mateus. Lore Científica, 10 jun. 2025. Disponível em: <https://open.spotify.com/episode/0KtglwhA0MufTyAzHkPqSy?si=i5mc0GFRTpqVoqyvCIEKOw>. Acesso em: 25 ago. 2026.

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DISCORD suspende 'lives' no Brasil por ordem da ANPD após suicídio de adolescente. Portal UOL, 17 ago. 2026. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2026/08/17/discord-suspende-lives-no-brasil-por-ordem-da-anpd-apos-suicidio-de-adolescente.htm>. Acesso em: 26 ago. 2026.

EDITORAALEPH. A Aleph vem aí com uma novidade para o segundo semestre de 2026: cinco autores brasileiros estreiam no catálogo da editora! [post]. Instagram, 14 jan. 2026. Disponível em: <https://www.instagram.com/p/DTgdvISEhnR/?utm_source=ig_web_copy_link&igsi=NTc4MTIwNjQ2YQ==>. Acesso em: 26 ago. 2026.

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