Bernunça – Origem da Criatura
O folclore brasileiro possui uma riqueza incrível! São inúmeras tradições folclóricas, manifestadas por meio de mitos, lendas, canções, danças, artesanatos, festas populares, brincadeiras, jogos, comidas típicas e, mais. Uma de suas espetaculares facetas são os folguedos, festas populares de espírito lúdico que, em geral, refletem uma identidade local, regional e nacional.
Os folguedos se apresentam com cantorias, danças e encenações teatrais. Fantásticos personagens atuam entre o trágico e o cômico, em movimentos quase mágicos. Contam, assim, as histórias e os costumes de diversas regiões do Brasil e do mundo. No litoral catarinense, o folguedo praticado é o Boi de Mamão, de influência açoriana. A cultura da dança, ou da brincadeira do Boi, é difundida em todo o território brasileiro. De acordo com a região, esses folguedos diferem-se uns dos outros. Seus nomes, suas danças, músicas, encenações e personagens. Cada um deles possui suas próprias características. O folguedo do Boi de Mamão é muito interessante. Inspirado em elementos da cultura europeia (Península Ibérica), africana e indígena, em aspectos geográficos, históricos e, em personagens mitológicos.
Figura 1 - Apresentação do Boi de Mamão em Paranaguá, pelo Grupo Mandicuera.
Fonte: Walter Alves, 2013.
No caso da brincadeira do Boi de Mamão, o que mais nos chama a atenção são os primorosos personagens. Por trás do espetáculo, está a caprichosa arte das pessoas envolvidas, que o tornaram um produto genuinamente catarinense. Em especial, da Ilha de Santa Catarina. A prática foi introduzida por colonizadores do litoral catarinense. Com o passar do tempo, foi sofrendo mutações, agregando novos elementos (personagens, músicas, ritmos, danças, etc.). O tema principal da dramatização ainda permanece o mesmo desde sua origem. Trata-se de uma encenação que conta a história de um boi de estimação que, para o desespero do dono, morre. Mas, ao final, algo mágico acontece e o boi volta à vida, sendo o momento em que o evento toma um rumo místico e intrigante.
O protagonista da trama é o próprio boi e a encenação aborda o tema da morte e ressurreição. Das outras figuras que compõem o Boi de Mamão, há o Cavalo, a Cabra, o Doutor, o Laçador, a Benzedeira e a Maricota. Além dos animais, há pessoas que se envolvem diretamente na brincadeira, como o dono do boi e os músicos. Depois de um tempo, foram acrescentados outros componentes, como a Bernunça.
Figura 2 - Bernunça.
Fonte: Autoria desconhecida, s/d.
Os personagens costumam ser de fácil definição. São caricatos. São autoexplicativos. No entanto, o personagem de nome Bernunça é o mais extraordinário. Logo, vem a pergunta: O que é e, de onde vem a Bernunça? A resposta é: a Bernunça foi inspirada em um ser mitológico fêmea que, segundo as canções do Folguedo do Boi de Mamão, come de tudo que lhe dão, inclusive humanos. Mas, afinal, o que está por trás da criação (ou recriação) de tal personagem? Especula-se que a Bernunça teria sido incorporada ao Boi de Mamão pela primeira vez na cidade de Itajaí. Tudo o que se sabe é que um cidadão adicionou um novo personagem ao folguedo. Uma criatura (personagem) com dentes enormes que “devoraria” pessoas. Outra característica singular é a cabeça, que se assemelha a de um crocodilo, e seu corpo é gorducho, como de um hipopótamo.
As representações são naturalmente fáceis de compreender. O Cavalo (ou cavaleiro) é um homem montado em seu cavalo. A Cabra é um animal que vive na mesma fazenda do Boi e durante a encenação tenta tomar seu lugar enquanto ele está morto. A Maricota é uma mulher alta, magra e desengonçada, que quando dança, girando, bate com as mãos nas cabeças das pessoas que assistem o espetáculo. Já a temida Bernunça, circula pelo folguedo, tentando comer crianças malcriadas e adultos pecadores.
Como mencionado, novos personagens foram sendo acrescentados ao folguedo do Boi de Mamão em algumas regiões, como: o Urso Preto, o Urso Branco, o Urubu, o Papagaio, o Jaraguá, entre outros. Erroneamente, tentou-se relacionar a Bernunça com algum tipo de dragão. Uma comparação equivocada, imprudente. Foi a suposição adotada, na falta de uma explicação que melhor norteasse sobre a misteriosa origem do já lendário personagem do Boi de Mamão... A Bernunça. E, definitivamente, ela não é um dragão. Menos ainda, um jacaré. Uma pesquisa mais cuidadosa, nos conduz até o passado da Península Ibérica, um berço pátrio da cultura do folguedo do Boi. Aquela região foi profundamente influenciada por culturas antigas, variadas. Entre elas, a civilização egípcia, que se fez presente, por lá. O seio das grandes civilizações que se desenvolveram, inclusive, na Europa. Penetrando nos enigmáticos caminhos da mitologia do Antigo Egito e em sua cultura religiosa, é possível se deparar com a luz das evidências. A Bernunça, teve sua origem inspirada em um ser mitológico egípcio. E, ao que tudo indica, não é uma mera coincidência.
Na crença egípcia, existiam inúmeros deuses e deusas. Sobretudo, uma deusa em particular causava muito medo. Seu nome: Ammit. Conhecida como a “Devoradora de Almas”, ou “Devoradora de Mortos”, era uma deusa diferente, do arquétipo tradicional dos deuses do Antigo Egito. Na mitologia, Ammit era uma espécie de demônio fêmea. Uma criatura híbrida, cujo corpo era composto por partes de três animais: uma cabeça de crocodilo, parte dianteira do corpo de leão e parte traseira de hipopótamo. É de fato gritante, como as ilustrações existentes de Ammit lembram, exatamente, a folclórica figura da Bernunça. Na cultura religiosa dos egípcios acreditavam que quando uma pessoa morria, sua alma era conduzida pelo deus Anúbis (o deus do submundo dos mortos), para ser julgada no Tribunal de Osíris. Lá, o coração do morto era pesado e comparado juntamente com a Pena da Verdade, na Balança do Julgamento. Se o morto, em vida, tivesse sido uma pessoa sem pecado, o coração seria mais leve do que a Pena da Verdade. Nesse caso, o morto poderia ressuscitar ou ir para o Paraíso. Mas, se o morto tivesse cometido pecados durante a vida, seu coração seria mais pesado que a Pena da Verdade. Sendo assim, o morto seria condenado e Ammit devoraria seu coração e sua alma, extinguindo para sempre a sua existência.
Figura 3 - Papiro de Ani, com imagem dos deuses Thoth e Ammit, de 1250 a.C.
Fonte: Museu Britânico, 1888.
A “deusa demônio”, Ammit, devorava aqueles que eram condenados como pecadores. Ela era uma das divindades mais temidas do Antigo Egito. Hieróglifos históricos retratam o respeito e o medo, da deusa. Além da aparência similar entre ela e Bernunça, outras semelhanças também ocorrem, corroborando com a teoria. No folclore do Boi de Mamão, a Bernunça come pessoas que não se comportam bem, exatamente como a mitologia egípcia acreditava que a “deusa demônio” fazia. A própria encenação do folguedo do Boi de Mamão faz referência ao dilema religioso da morte e ressurreição, onde o boi morre e depois é ressuscitado. Ao mesmo tempo, a Bernunça se faz presente na dramatização teatral, lembrando em parte a crença egípcia, onde o morto esperava pela condenação ou a salvação, como Ammit, que aguardava o momento oportuno, para se alimentar dos pecadores.
A mitologia egípcia aparece no epicentro da criação da personagem Bernunça. Inclusive, a sua personalidade e propósito pessoal foram “emprestadas” de Ammit. Não se sabe quem foi o artista criador e/ou qual era o desígnio por trás de tal criação. A Bernunça traz sua mensagem. Profunda. Instrutiva. Moral. Espiritual. Certamente, o autor teve acesso à cultura do Antigo Egito e ao conteúdo fantástico da rica mitologia dos deuses egípcios. Foi assim que a deusa Ammit “transformou-se” em Bernunça. Na brincadeira do Boi de Mamão, a personagem tornou-se uma espécie de entidade artística. Emana sensações, desde alegre a assustada. Brincando no folguedo, ela nos convida a pensar. Refletir. Toda divindade é poderosa. Está acima do Bem e do Mal. Acima da Vida e da Morte. Respeite. A Bernunça é a deusa do folclore catarinense.