Cordel e rap: um caleidoscópio sonoro da diversidade periférica

“...a sociedade precisa de todas as vozes portadoras de mensagens arrancadas à erosão do utilitário: do canto, tanto quanto da narrativa.” Paul Zumthor, 1997, p. 183.

 

O Brasil transpira práticas culturais de diferentes odores, cores e sabores. A diversidade aqui é um caleidoscópio mágico e surpreendente que produz arte, canônica ou não, de qualidade singular para nos despirmos, nos rebelarmos, gritarmos, em pigmentos, argila, prosa ou verso. Expressões artísticas populares, periféricas e verbais muito intensas como o repente, o cordel, o hip-hop, o rap, o trap, o funk, o slam, entre tantas outras, ganham espaço nesse espelho refletor do brasileiro que, por meio da linguagem artística se constrói, buscando seu lugar de fala. 

Neste artigo trataremos de dois gêneros textuais não canonizados a fim de valorizar as variantes linguísticas que os compõem e a diversidade textual, cultural e literária de cada um deles: a literatura de cordel – nascida em regiões rurais e urbanas do Nordeste brasileiro –, e o rap, representativo de uma voz sonora e vibrante da periferia urbana, principalmente nas grandes metrópoles. No Brasil, o rap, originário do hip hop,  ganhou força nos anos 1980, principalmente nas comunidades da grande São Paulo.

Embora o cordel e o rap pareçam bastante diferentes, há muitas características semelhantes entre ambos os gêneros no que se refere à forma de improviso em versos ágeis e dançarinos, à linguagem tão singular que vem das ruas – seja daquelas de terra batida do sertão ou dos paralelepípedos e asfaltos das metrópoles – , porque ambos os tipos de produção retratam a realidade dos grupos “à margem” aos quais pertencem, buscando representar o grito necessário que seu público-alvo quer ouvir, mostrando-nos que “os gêneros textuais se constituem como ações sociodiscursivas para agir sobre o mundo e dizer o mundo, constituindo-o de algum modo” (Marcuschi, 2006, p. 25).

A literatura de cordel compõe a literatura popular, tão próxima da oralidade do povo – principalmente do nordestino, e o rap grita a voz da periferia invisibilizada dos grandes centros urbanos. Falemos, então, um pouco sobre particularidades de cada um desses gêneros populares.

 

A Literatura de Cordel

Desde o final do século XIX, essa literatura rica e criativa produzida no Nordeste brasileiro destaca-se em folhetos criados, inicialmente, pela população local que, em geral, tinha pouca ou nenhuma instrução formal, mas uma linguagem oral repleta de vivência genuína e muita criatividade (Abreu, 2006, p.1). Tendo sua origem basicamente nas cantigas medievais portuguesas, e, portanto, partindo da oralidade, os cordéis foram assim denominados porque os poemas populares, em princípio, eram pendurados em cordas ou barbantes para serem vendidos em locais públicos. Muitos poemas são ainda ilustrados com xilogravuras também usadas nas capas. Os cordelistas, em princípio, não obedeciam a uma estrutura métrica e os versos eram recitados de forma cadenciada, acompanhados, em geral, de viola, cujos temas ocorriam como desafios ou disputas entre os cantadores, como histórias de acontecido, com temas do cotidiano, ou como romances, com homens valentes e mulheres virtuosas.

Os folhetos evoluíram em busca de uma estrutura que definissem o gênero, e essa literatura não erudita foi sendo transformada e hoje apresenta características próprias, configurando-se como uma forte expressão cultural que, inclusive, adapta obras canônicas, reescritas em versos ritmados e cantados e que reúne seus representantes na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, existente desde 1988 no Rio de Janeiro.

O poeta de cordel “clássico” mais conhecido é Patativa do Assaré (Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002) , mas há muitos outros, como Leandro Gomes de Barros (1865- 1918), José Alves Sobrinho (1936-2011), Homero do Rego Barros (1919–2013), Téo Azevedo (1943), Zé Melancia (1909-1977), Zé Vicente (1922-2008), entre demais artistas. Escritores canônicos como João Cabral de Melo Neto (1920-1999), José Lins do Rego (1901-1957), Guimarães Rosa (1901-1957) e Ariano Suassuna (1908-1967) também receberam influência da literatura de cordel.

 

O Rap

RAP é a sigla de Rhythm and Poetry e o gênero é um discurso rítmico alicerçado na poesia de origem popular (Guimarães, 1998, p. 142). Há indícios de que o rap tenha surgido no final da década de 1960, na Jamaica, e levado às comunidades negras dos Estados Unidos no final do século XX. No inglês britânico, a palavra era usada como sinônimo de “contar algo” – talvez isso remeta à ideia de “alguém querer explicar algo”, como ocorre no rap atual. Há também estudos que indicam que o rap tem semelhanças com a música celta, do canto de improvisação repleto de “duelos”, próprios da música folclórica importada principalmente de escoceses e irlandeses que se instauraram no sul dos Estados Unidos e incorporaram o ritmo ao jazz de raiz norte-americano. Era a poesia a transformar, renovar e vivificar o homem. Por meio dela, podemos ter o mundo real e o mundo utópico. Vale lembrar também que rap integra o movimento hip-hop e que suas rimas podem ser interpretadas a capella (somente voz), bem como com sons de instrumento imitados pelo próprio intérprete ou com som musical de fundo, chamado beatbox. Os rappers ou MCs (mestre de cerimônias) interpretam temas polêmicos como questões políticas e sociais como segregação racial, injustiça social, violência, sexo e drogas (Carvalho, 2011, p. 41-45).  O rap no Brasil, como mencionado, ganhou maior expressão a partir dos anos 1980 e destaca alguns nomes como Criolo (1975) Djonga (1994), Drik Barbosa (1992), Emicida (1985), Flora Matos (1980), Rappin' Hood (1972), Linn da Quebrada (1990), Mano Brown (1970), Negra Li (1979), Preta Rara (1985), Racionais (1988), Xamã (1989), entre outros. É importante ressaltar que tanto no cordel como no rap, o texto ganha maior importância do que a melodia e/ou a harmonia musical.

Figura 1 - Imagem exibida pela primeira vez em 27 jan. 2019, referente ao show Cordel umbilical do artista Cangaço.

Dia de rap e cordel

Fonte: Autor desconhecido, 2019.

 

A clave de sol do cordel e do rap

A migração de muitos nordestinos que viviam no agreste ou no sertão para as zonas periféricas das metrópoles brasileiras, geralmente, em busca de trabalho, fez construir uma mescla cultural de cordel e de rap que podem ser apreciadas na arte de grupos como o Z’África Brasil, criado em meados dos anos 1990, principalmente pelo rapper paulistano Gaspar (1983); do Projeto Bagunçaço, ativo desde 1991, em Salvador, o qual trabalha, entre outras atividades, a união da literatura de cordel e do rap à música clássica. Além desses grupos, artistas como o rapper baiano conhecido como Cangaço Preto, Cangaço Negro ou Cangaço (1987), e o cearense RAPadura Xique-Chico (1984), são fortes representantes da mescla de cordel e rap a qual ganha palcos e mídias divulgando, primordialmente, vivências do nordestino jovem e engajado ao seu tempo.

Por meio da arte, esses representantes já renomados, bem como tantos outros ainda anônimos, reconhecem-se e produzem uma arte híbrida que fala de si, de seu grupo e de sua visão crítica, estabelecendo parâmetros de percepção e concepção do mundo.

Há poesia e lirismo, portanto, tanto em clássicos como “O Auto da Compadecida” (1955) de Ariano Suassuna, nos cordéis de Patativa do Assaré, bem como no estilo híbrido que mescla rap e cordel e vem conquistando tantos jovens no país pela voz representativa do seu tempo. Ao serem reconhecidos como produtores de arte, esses “porta-vozes do povo, moderadores do poder, historiadores” espelham uma comunidade que os escolheu pela capacidade que apresentam de emocionar (Zumthor, 1997, p. 227). Por isso, ganham posição de autoridade, como quem pode passar conhecimento a novas gerações.

A cultura popular – tanto a folclórica nordestina quanto a urbana – , bem como a união de ambas, projetam em nossa consciência imagens vivas do mundo e do homem, suprindo o espaço que isola os seres, fazendo valer a pena lutar por sentimentos, ideias e ideais humanos.[1]  Os grandes poetas de todos os tempos são dotados de uma dimensão transversal e resistente que permite que possamos lê-los com olhos de hoje e permitirá que outros os leiam com olhos de amanhã, porque a poesia transforma, renova e vivifica o homem (Bosi, 2001, p. 141).  Por meio dela, podemos ter o mundo real e o mundo utópico. A poesia popular e a música das ruas não são excludentes: elas representam a voz de um povo em um tempo. Viajar por meio da arte, principalmente da poesia popular, musicada ou não e tão repleta de verdade e de simbologia, é viajar também pela própria língua e pela nossa história.

Figura 2 - Cangaço Preto no Sarau Jovem, Vitória da Conquista (BA). Nota para o chapéu de cangaceiro, o boné e os folhetos pendurados.

Fonte: Autor desconhecido, 2014.

 

Referências Bibliográficas

ABREU, MárciaCultura letrada: literatura e leitura. São Paulo: Ed. Unesp, 2006.

ACADEMIA BRASILEIRA de Literatura de Cordel. Disponível em: <http://www.ablc.com.br/>. Acesso em: 19 de ago. 2012.

ARAÚJO, J. C.; BIASI-RODRIGUES, B. (Orgs.).  Interação na Internet: Novas formas de usar a linguagem. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.

BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 2001.

CARVALHO, Tatiane Rogéria Valério de. A identidade do Movimento hip-hop curitibano a partir da Análise do Discurso de letras de música de rap. Dissertação de Mestrado. UFPR, 2011. Disponível em:https://acervodigital.ufpr.br/xmlui/bitstream/handle/1884/26304/Dissertacao_finalizada_Tatiane.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 10 abr. 2025.

CONECTA Conquista. 3o sarau jovem traz nova integração entre público e manifestações culturais. Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista, 2014, n.p. Disponível em: https://www.pmvc.ba.gov.br/3o-sarau-jovem-traz-nova-integracao-entre-publico-e-manifestacoes-culturais/. Acesso em 13 de jun. 2025.

GUIMARÃES, Maria Eduarda Araújo.  Do samba ao rap: a música negra no Brasil. Tese de doutorado defendida no Instituto de Filosofia e Ciência Humanas da Universidade de Campinas, 1998.

HOOD Haping. Epigrama. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=sLEccae3Axo>. Acesso em: 20 de mai. 2025.

MARCUSCHI, L. A. Gêneros textuais: Configuração, dinamicidade e circulação. In: KARWOSKY, A. M.; GAYDECZKA, B.; BRITO, K. S. (Orgs.) Gêneros textuais: Reflexões e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2006. P. 23-36.

NOGUEIRA, C. Patativa do Assaré- Cabra da peste. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=UqwShzA8DE4> Acesso em: 29 de jul. 2012.

SHUKER, Roy. Vocabulário de música pop. São Paulo, 1999.

ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Trad. Jerusa Pires Ferreira, Maria Inês de Almeida e Maria Lucia Diniz Pochat. São Paulo: Hucitec, 1997.