Sabedorias do corpo

Para algumas sociedades afro-ameríndias, é assustadora a forma como nós, ocidentais, conduzimos nossas crianças em carrinhos de bebê ou porta-bebês; estruturas semelhantes, com a diferença de que o último não tem rodinhas. O design desses equipamentos foi pensado para proteger a criança do mundo externo: do orvalho, do sol, da chuva, conforme o clima e a hora do dia.
No entanto, esses instrumentos não apenas protegem, também afastam. Afastam o bebê do toque humano, do calor do outro, da pele, do cheiro, da pulsação viva. E é isso que assusta as culturas afro-ameríndias: para elas, o contato é vital.

Seus porta-bebês são completamente diferentes: uma cinta que prende a criança ao corpo de quem a carrega. Assim, ela permanece em contato com o calor humano e pode, ao mesmo tempo, observar o mundo à sua volta. Ver com olhos de dentro e de fora. Sentir com o corpo inteiro.

Essa forma ancestral de carregar os pequenos talvez nos devolva o verdadeiro sentido de paidagogos, do grego (παιδαγωγός), o guia da criança, aquele que a conduz. Na experiência afro-ameríndia, o guia não empurra o carrinho à distância. Ele carrega no peito ou nas costas, tornando o mundo algo que se partilha com calor, cheiro e movimento. A criança, assim, aprende que o mundo é vasto  e que não gira ao redor dela.

Precisamos descolonizar até mesmo o modo como nos relacionamos com nossas crias. O excesso de proteção, esse zelo que afasta, gera seres egocêntricos, ou pior: frágeis, mal adaptados, ilhados num mundo artificial. Crianças que crescem acreditando ser o centro do universo, porque desde cedo foram isoladas dos afetos diretos.

Muitas vezes, a mãe trabalha o dia todo e deixa o filho aos cuidados de uma estranha, que por sua vez precisou deixar o próprio filho com outra para garantir o sustento. É uma cadeia de afeto deslocado,  um ciclo de ausência hereditária.

No nordeste paraense, herdamos da cultura indígena uma prática alimentar que também diz muito sobre esse vínculo: o preparo da carimã, uma massa de mandioca d’água assada lentamente, sem escaldamento, o que evita a formação das típicas bagas da farinha tradicional. A carimã era (e ainda é, em certos lugares) uma espécie de polvilho úmido com o qual se faz mingau ou papa para crianças que já exigem algo além do leite materno.

Mas o mais interessante não está só no alimento, está na forma de oferecê-lo. A papa era servida com a própria mão. O dedo indicador, em forma de concha, coletava a porção do prato e a levava diretamente à boca do bebê. Antes, porém, a mãe lambia a papa para verificar se a temperatura estava segura, sem risco de queimar a criança.

Você perguntaria se essa mãe não sentia a temperatura no dedo com o qual coletava a papa para servir o bebê. Ora, a pele calejada de quem trabalha a terra nem sempre percebe o calor com precisão. Mas a língua sente. A língua sabe. A mesma que canta, que consola, que amaldiçoa ou abençoa, era a primeira a provar o alimento do filho.

Pode parecer anti-higiênico aos olhos urbanos. Mas talvez contenha uma sabedoria antiga: como o cordão umbilical que, além de nutrir, transmite anticorpos, a papa lambida também compartilhava defesas invisíveis; imunidades, bactérias amigas, a biologia do afeto.

Proteger demais, diz a lógica do carrinho moderno, é garantir segurança. Mas, no fundo, talvez seja o contrário: o excesso de assepsia fragiliza. Quem protege em demasia, vulnerabiliza.

Talvez esteja aí a grande diferença entre a papa de carimã lambida pela mãe e as mamadeiras plásticas com bicos de silicone moldados como o seio de uma chimpanzé. A segunda é um simulacro da vida. A primeira é a própria vida passando de um corpo para outro.

Ainda no ventre materno, a criança se nutre e se imuniza com a carga de microrganismos herdada da mãe. Depois, nasce — e nasce com uma violência assombrosa. A vida, no início, não se entrega em bandejas esterilizadas. Ela se oferece entre dedos de barro e línguas que sabem canções. Porque o afeto, o verdadeiro,  não se higieniza. Se compartilha.