Mulheres na política: entre trabalho produtivo e reprodutivo
Ao ingressar no mercado de trabalho, as mulheres não deixam para trás seus afazeres domésticos, chamados na teoria feminista de reprodução social. Isso significa tarefas como cozinhar, limpar, cuidar dos filhos e do marido, dentre outras. Tanto a produção quanto a reprodução social ficam concentrada nas mãos das mulheres pela falta de uma divisão justa do trabalho entre os gêneros.
Os baixos índices de mulheres nas instituições políticas latino-americanas levou diversos países a desenvolverem dispositivos que incentivassem sua participação, como é o caso das cotas para cargos eletivos. Essas iniciativas não surtiram os efeitos desejados e, especialmente no Brasil, o engajamento político e a representatividade de mulheres nas instituições se mostra escassa (Araújo, 2016). Ao olharmos para o voto, as mulheres representam mais de 52% do eleitorado brasileiro, porém continuam sendo minoria em entidades como o Congresso e o Senado nacionais (Accarini, 2026). Teóricas e teóricos da ciência política se perguntam, portanto, por que esse fenômeno continua a acontecer mesmo após os incentivos criados, e se existem especificidades para que ele se prolongue.
Figura 1 - Estátua de mulheres em frente a um globo.
Fonte: Nik Udashov, 2023.
No Brasil, o sufrágio feminino foi conquistado no ano de 1932, há menos de 100 anos, e só em 1965 o voto feminino tornou-se obrigatório (Teodoro, 2021). Desde então, a participação de mulheres em espaços públicos e instituições governamentais tem aumentado, porém em um ritmo bastante lento. Neste meio tempo, as mulheres passaram a se inserir cada vez mais na chamada “esfera pública” da sociedade através do trabalho assalariado: em 1970, apenas 18% das brasileiras trabalhavam, número que subiu para 52% no ano de 2007 (Dados da Fundação Carlos Chagas).
De acordo com a socióloga Clara Araújo (2016, p. 54), trabalhadoras assalariadas costumam ter maiores níveis de engajamento político do que mulheres não assalariadas. Isso se dá pelo fato do trabalho gerar socialização, troca de opiniões e autonomia, permitindo o acesso a espaços de contato e disputas de ideias:
[...] o engajamento das mulheres que possuíam trabalho assalariado foi maior do que entre as mulheres sem trabalho assalariado. Os papéis de gênero desempenhados pelas mulheres se relacionam e afetam a participação e o exercício da liderança política: mulheres que não trabalham participam mais em associações religiosas e associações de pais em comparação com os homens em geral e em comparação com as mulheres que trabalham (Araújo, 2016, p. 53).
Esses novos espaços nos quais as mulheres se inserem, no entanto, são representados histórica e politicamente de maneira escassa. Os interesses da classe trabalhadora são frequentemente negligenciados, mesmo em democracias representativas, nas quais opiniões e perspectivas entram em choque o tempo todo, e as que saem vitoriosas costumam ser aquelas de classes com melhores condições socioeconômicas e/ou maior poder de influência: as chamadas classes dominantes. Dessa perspectiva, portanto, as mulheres começam a se engajar politicamente ao entrar em um terreno – o mundo do trabalho – que por si só é pouco representado (Young, 2006).
Para além disso, ao ingressar no mercado de trabalho, as mulheres não deixam para trás seus afazeres domésticos, chamados na teoria feminista de reprodução social. Isso significa tarefas como cozinhar, limpar, cuidar dos filhos e do marido, dentre outras. Dessa forma, cria-se uma dupla jornada de trabalho: por um lado, o trabalho assalariado na chamada esfera pública e, por outro, o trabalho doméstico na esfera privada (Saffioti, 1976; Federici, 2019). Tanto a produção quanto a reprodução social ficam concentradas nas mãos das mulheres pela falta de uma divisão justa do trabalho entre os gêneros.
A dupla jornada de trabalho causa uma desvantagem política tratada por Araújo: o fator tempo. O tempo, de acordo com a autora, é crucial para a maioria das formas de participação política[2], que demandam algum grau de dedicação diária, semanal ou mensal. Concentrando a produção e a reprodução, torna-se complexa a tarefa de obter tempo para o engajamento político. Os obstáculos, portanto, somam-se: em primeiro lugar, a participação só se dá quando a mulher vai para a esfera pública, inserindo-se em um terreno que é pouco representado politicamente, e onde precisaria de tempo para se engajar, mas ainda está atrelada às tarefas de reprodução social, as quais se somam às horas de trabalho “formal”.
Para além dessas desvantagens, existem fatores inerentes à própria política, que parecem culpados pelo distanciamento das mulheres em relação à participação e representação: primeiro, o sistema democrático das sociedades ocidentais foi criado e historicamente ocupado por homens, que ainda relutam na inclusão de mulheres em seus comitês e partidos políticos, ou mesmo em lançar candidatas competitivas à cargos eletivos (Araújo, 2016). Por conta do também histórico confinamento feminino na esfera privada, muitas pessoas recusam-se a aceitar ou fomentar os papéis conquistados por mulheres na esfera pública, apegando-se a bases ideológicas que definem atividades e papéis de acordo com o gênero, estruturando deveres no domínio familiar e econômico. Ou seja, acabam por naturalizar a masculinidade como padrão do político.
Em segundo lugar, a eleição de mulheres não basta para uma representação efetiva. Como dito por Karen Celis (2008), existem interesses, opiniões, e perspectivas que são profundamente heterogêneos entre as mulheres, e a representação, para ser efetiva, deve dar conta dessa heterogeneidade. Precisamos pensar não apenas na representação vazia, mas no que está sendo representado. Por exemplo, mulheres conservadoras eleitas para o Congresso ou para o Senado nacionais dificilmente vão representar os interesses e opiniões de mulheres progressistas, e vice-versa.
As variáveis políticas e os obstáculos, portanto, são muitos e em diversas dimensões sociopolíticas. Para tratar da participação de mulheres em democracias representativas precisamos levar em conta todos esses fatores e desvantagens. Se o objetivo é reverter a situação de sub-representação e baixa participação política, é preciso considerar novas formas de divisão do trabalho mais justas, além de outros modos de acesso e engajamento político para além das formalizadas em instituições estatais.
Notas de Rodapé
[1] O presente texto foi elaborado com base em um encontro “Feminismo e as Instituições Democráticas: Representação e Participação” do Grupo de Teoria, Política e Questões Globais (POLARIS) sediado no Departamento de Ciência Política da UNICAMP.
[2] Clara Araújo entende por participação política de uma forma ampla, envolvendo o voto, mobilizações, atividades comunitárias, protestos, entre outros.
Referências Bibliográficas
ACCARINI, André. Mulheres são maioria nas urnas, mas ainda têm pouco espaço no poder. 17 Agosto, 2026. Disponível em: <https://www.cut.org.br/noticias/mulheres-sao-maioria-nas-urnas-mas-ainda-tem-pouco-espaco-no-poder-7083>. Acesso em: 28 de ago. 2026.
ARAÚJO, Clara. Valores e desigualdade de gênero: mediações entre participação política e representação democrática. Civitas: Revista de Ciências Sociais, v. 16, n. 2, p. e36-e61, abr./jun. 2016. DOI: https://doi.org/10.15448/1984-7289.2016.2.23143.
CELIS, Karen et al. Rethinking women’s substantive representation. Representation, v. 44, n. 2, p. 99-110, 2008.
SAFFIOTI, Heleieth. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. Petrópolis: Vozes, 1976.
FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e lutas feministas. Trad. Verena Glass. São Paulo: Elefante, 2019.
FUNDAÇÃO Carlos Chagas. Mulheres, Trabalho e Família. Repositório FCC. Disponível em: <https://www.fcc.org.br/repositorios/trabalho-mulheres/detalhes/?serie=2>. Acesso em: 29 de ago. 2026.
TEODORO, Rafael. A conquista do voto feminino. Agência Câmara de Notícias. 15 fev. 2021. Disponível em: <https://www.camara.leg.br/internet/agencia/infograficos-html5/a-conquista-do-voto-feminino/index.html>. Acesso em: 29 de ago. 2026.
YOUNG, Iris Marion. Representação política, identidade e minorias. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, n. 66, p. 139-190, 2006. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-64452006000200006.