Resenha: “Nascido para Matar” (1987)

Figura 1 - Cartaz do filme “Nascido para Matar” (1987).

Fonte: Warner Bros, 1987.

 

Estreado em 1987, o filme “Nascido para Matar” retrata a violência presente na Guerra do Vietnã[1], em que homens foram treinados para se tornarem assassinos. Com duração de 119 minutos, a trama chegou a receber indicações do Globo de Ouro e da National Society of Film Critics Award, sendo dirigida por Stanley Kubrick. 

Nascido em 26 de julho de 1928, na cidade de Nova Iorque (EUA), Kubrick mostrava interesse pelo xadrez, jazz e fotografia desde sua infância, áreas que influenciaram posteriormente suas produções. Iniciou sua carreira com 16 anos, como fotógrafo da revista “Look”. No entanto, no início da década de 1950, migrou para o cinema, se consagrando como um dos mais importantes cineastas da história. Dentre suas adaptações, estão obras como: “Dr. Fantástico” (1964), “2001 - Uma Odisseia no Espaço” (1968), “Laranja Mecânica” (1971) e “O Iluminado” (1980). Em 7 de março de 1999, faleceu em casa após um ataque cardíaco, deixando um grande legado para o audiovisual.

Mesclando ficção a acontecimentos históricos, “Nascido para Matar” (1987) constrói um cenário de guerra que visa se aproximar da brutalidade real que acompanhou o período da Guerra Fria. Deste modo, a narrativa começa com jovens estadunidenses tendo seus cabelos raspados, mediante a convocação obrigatória do exercício. No decorrer de seis semanas, eles passaram por um processo de treinamento na Carolina do Sul (EUA), para se tornarem fuzileiros navais. Nesta primeira etapa, são instruídos pelo sargento Hartman, interpretado pelo ator Ronald Lee Ermey (1944-2018). Com comentários ácidos e preconceituosos, pronunciados sempre em alta tonalidade, o militar tem uma posição rigorosa e agressiva com os novatos.

Ao longo dessa preparação, os punia constantemente, sendo seu principal alvo Leonard Lawrence (Vincent Philip D'Onofrio), apelidado de Pyle. Considerado desajustado, tinha dificuldade em acompanhar as atividades. Em determinada circunstância, o protagonista, James T. Davis (Matthew Modine), passa a ajudá-lo com inúmeras tarefas, desde arrumar seus sapatos até segurar um rifle. Esse apoio foi fundamental para seu desenvolvimento, mas ainda assim, cometia erros, ao ponto do sargento decidir castigar os outros colegas pelos deslizes do moço. Com raiva da situação, os rapazes se vingaram dele, batendo-o durante a noite. A partir disso, sua personalidade muda de forma radical, ficando explicitamente mais violento. 

Quando todos ficam aptos, recebem suas futuras funções no exército. Depois disso, em uma noite que James está de vigia, perto do fim de sua estadia na Ilha Parris (Carolina do Sul, EUA), ele encontra Leonard no banheiro colocando balas em uma arma. Sob um comportamento feroz, age de forma destrutiva, assassinando Hartman e dando fim a sua própria vida. 

A parte inicial do filme é então concluída. Davis, conhecido também por Hilário ou Gaiato (distinção que ocorre entre a legenda e a dublagem), chega ao Vietnã. Ele escolheu trabalhar como jornalista militar e, no começo, suas funções se limitavam à elaboração de registros, muitas vezes manipulados a favor dos Estados Unidos. Porém, é mandado para a região de Phu Bai, onde atua em conflitos como atirador. Entre ataques e ameaças, vê amigos perderem a vida e o local sendo degradado. Na missão final, seu grupo é acometido por tiros certeiros, disparados por uma pequena menina. Ela tem uma morte trágica, implorando por rendição enquanto agonizava. Gaiato acaba com seu sofrimento e o enredo é concluído com os soldados partindo de um país em chamas.

A obra levanta inúmeros pontos sobre a Guerra do Vietnã e é um instrumento interessante para refletir sobre o que aconteceu. Sob a perspectiva norte-americana, somos confrontados pela ótica de homens postos sobre batalhas que pouco compreendem. Há uma desumanização de suas individualidades, de maneira que todos recebem apelidos e tem sua importância reduzida ao ato de matar, como se estivessem sendo formados exclusivamente para isso, afinal, são tidos como uma extensão de seus maquinários e pelotões: “fuzileiros morrem, mas o Corpo de Fuzileiros é para sempre”. 

Em inúmeros momentos, repetem frases sobre amar sua pátria, sua terra. São ensinados a detestar comunistas. Muitos sentem que estão ajudando os vietnamitas e, em uma rápida cena, um dos soldados se conscientiza, afirmando que não existe liberdade neste contexto, somente uma chacina. O pensamento é rapidamente desviado e, como em muitas conversas, discutem sobre sexo. Pouco se vê figuras femininas, apenas uma prostituta e a garota do último embate, levando o espectador a pensar que este não é um espaço para mulheres. A visão sobre elas é misoginia e objetificada, as assemelhando a fraqueza ou qualquer artefato de posse. 

Outra característica interessante é o retrato da população local, que quase nunca é observada. De modo geral, é possível concluir que cidadãos comuns estavam lutando e morrendo na guerra, ou seja, pessoas que não tiveram um grande preparo como os estadunidenses, embora seu desempenho e coragem fossem notáveis. Portanto, sabemos a perspectiva somente de um lado, o ocidental e capitalista. Isto pode encaminhar para um debate voltado ao Orientalismo[2], já que temos a imagem de um Oriente estereotipado, em que os vietnamitas são repetidamente inferiorizados e subjugados.

Em suma, é um filme muito relevante para quem quer ver recortes dessa época, mas também é fundamental se atentar às representações que foram feitas. Para quem tem curiosidade em fatos históricos, o longa é indispensável, lembrando que possui conteúdo sensível e sua recomendação etária é acima de 16 anos. Além disso, não romantiza a guerra, podendo ajudar na desconstrução de qualquer signo positivo sobre confrontos militares.

 

Notas de Rodapé

[1] Entre 1959 a 1975, durante a Guerra Fria, aconteceu um conflito armado no Vietnã, entre sua região Sul, majoritariamente influenciada pelos Estados Unidos, e Norte, com influências da União Soviética e da China, apelidado de Guerra do Vietnã. 

[2] Edward Said (1935-2003), um crítico literário palestino, criou um conceito chamado de “orientalismo”, referindo-se as abordagens ocidentais complexas e estereotipadas sobre o Oriente, muitas vezes envolvendo preconceitos e distorções culturais.

 

Referências Bibliográficas

BOULHOSA, Tatiana. O que é e onde fica o Extremo Oriente? In: Extremo Oriente; Aproximações e Afastamentos. Material Referencial BA Online. Unidade 1. Disponível em: <https://ead.belasartes.br/mod/scorm/player.php?a=10366¤torg=B0&scoid=78066> Acesso em: 07 de set. 2023. 

SAID, Edward. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

PADALINO, Leah. Stanley Kubrick: a biografia de um gênio. A Mente é Maravilhosa, 22 de dez. 2022. Disponível em: <https://amenteemaravilhosa.com.br/stanley-kubrick-biografia-de-um-genio/> Acesso em: 07 de set. 2023.