Inclusão: Educação Indígena e Justiça Histórica

A complexa relação entre as universidades brasileiras e o mundo do trabalho reflete uma série de desafios históricos e contemporâneos. Embora as instituições de ensino superior tenham avançado, a absorção desse conhecimento pelos geradores de empregos ainda é limitada. Este cenário é agravado pelo legado da colonização e os impactos da globalização, que, paradoxalmente, impulsionam o progresso ao mesmo tempo em que marginalizam os povos indígenas, os primeiros habitantes desta terra.

Apesar dos avanços, os investimentos em educação e pesquisa permanecem insuficientes, especialmente na educação indígena, em que os problemas de gestão, orçamento e infraestrutura são mais acentuados. Historicamente, os povos originários, que outrora eram maioria, foram submetidos a diversas formas de exploração e deslocamento, resultando em uma situação de refúgio. Em Passo Fundo/RS, a presença desses grupos comercializando nas ruas ilustra a migração forçada e a perda de territórios tradicionais.

Figura 1 - Acampamento indigena.

Fonte: Sananduva FM, 2018

Este artigo explora a trajetória dos povos indígenas na região, desde a chegada de Cabo Neves, que marcou o início da expulsão sistemática de grupos como, Tupi-Guarani, Jês e Caingangues, até os desafios contemporâneos de inclusão e valorização das culturas indígenas. A narrativa destaca a necessidade urgente de políticas educacionais que respeitem e integrem as identidades étnicas, promovendo um ambiente de aprendizado que reconheça e valorize a diversidade.

Considerando a dimensão cultural, territorial e populacional, pode-se afirmar que as universidades do nosso país  produzem de forma limitada e o mundo do trabalho menos ainda. Dessa forma, percebe-se diariamente que o pouco que é gerado pelas academias é mais do que o mercado consegue absorver: O resultado do processo de exploração iniciado pela colonização e intensificado na globalização, promoveram perdas irreparáveis aos primeiros donos da terra que por vezes são desconsiderados tanto pelas instituições de ensino quanto pelo mercado. Deste modo, recuam exponencialmente e se perdem em sua própria origem.

Figura 2 - Grupo indígena.

Fonte: Estância Virtual, 2019.

Ao longo dos séculos, os indígenas, passaram a desempenhar o papel de parceiros comerciais, depois, submetidos à escravidão, tornaram-se refugiados em sua própria terra. Hoje, muitas vezes, precisam estudar em escolas regulares, frequentemente despreparadas para atendê-los, encontrando-se em um ambiente  onde o professor, alheio à sua comunidade e suas tradições, tenta transmitir um conhecimento que lhes é intrinsecamente próprio, ao mesmo tempo em que expõe um universo que não corresponde à sua realidade sociocultural e os torna vítimas de preconceito, racismo, violência e segregação.

Na cidade de Passo Fundo/RS, como mencionado, percebe-se uma quantidade significativa de povos originários circulando pela região central e trocando sua rica herança cultural, convertida em artes e artesanatos, por uma pequena quantia em dinheiro, referenciando uma prática reminiscente aos tempos de escambo, onde concomitantemente demonstram-se ávidos por apoio e reconhecimento enquanto evidenciam sua resistência e luta por dignidade. Diante dos fatos, de um lado, tem-se a discussão de que os indígenas aos poucos estão migrando para a cidade, e, de outro, a afirmação de que a cidade acabou ganhando proporções e ultrapassou um espaço que deveria ser indígena.

Corroborando os fatos, historicamente, evidencia-se que Passo Fundo/RS era propriedade de diversos grupos indígenas, incluindo os Tupi-Guarani, Jês e Caingangues, que foram gradativamente expulsos desde 1827, pelo militar Cabo Neves, por meio da estratégia do governo imperial que lhe concedia 17.724 hectares de terra para exploração e desenvolvimento local, sem atribuir nenhum tipo de indenização para os povos que já habitavam ali. Aqueles que resistiam eram eliminados fisicamente, e os que cediam eram aculturados imediatamente.

Na época, Cabo Neves explorava mão de obra escravista, e alguns desses servos chegaram a se relacionar com os indígenas locais, destacando a lenda da Mãe Preta, uma das escravizadas da região. Mesmo existindo uma versão oficial, a lenda é constituída de outras versões, na qual uma delas diz: do relacionamento desta escravizada com um indígena, nasceu um filho que, cansado da exploração que vivia, propôs à mãe fugir daquele lugar e tentar uma nova vida com o pai  que fora expulso de sua terra. Sua mãe não concordou, e, deste modo, ele resolveu fugir na calada da noite, deixando-a. Na mesma noite ele foi executado pelos funcionários que faziam a segurança local, já no dia seguinte, ao descobrir o acontecido, Mãe Preta resolveu se isolar, chorando até o dia de sua morte lágrimas tão densas que provocaram o surgimento de uma fonte de água que jorra até hoje. Depois do ocorrido, a fonte se tornou um lugar frequentado pelos tropeiros que por ali passavam para reabastecer suas provisões de água.

Figura 3 - Fonte da Mãe Preta

Fonte: Nei Alberto Pies, 2022.

Desde então, o número de indígenas na região diminuiu significativamente, surgindo a seguinte reflexão: O indígena continuará existindo? Onde e até quando? Durante sua existência, teremos povos originários com duas culturas ou à margem de duas culturas, sem definição de uma ou outra? Como incluir o indígena novamente em um espaço que já lhe pertencia?

Evidenciou-se que atualmente restam apenas cerca 350 indígenas na cidade de Passo Fundo/RS, com habitações precárias concentradas majoritariamente nos fundos da estação rodoviária da cidade. Deste modo, entende-se que, para os governos em suas diversas esferas, os povos originários não são prioridades e nem são tratados com a urgência necessária, considerando que pouco lembramos ou desconhecemos a participação do índigena como sociedade.

Para reparar essas perdas históricas, existem diversas ações, aspectos legais e sociais que podem ajudar a fortalecer as comunidades indígenas, promovendo a reparação das injustiças e a preservação de suas culturas e tradições. A educação é uma ferramenta poderosa para a reparação das injustiças históricas sofridas pelos povos indígenas, mas, por si só, pode não ser suficiente. É necessário oferecer compensações adequadas e garantir que os responsáveis pelas injustiças sejam responsabilizados. Garantir que os direitos territoriais dos povos indígenas sejam reconhecidos e respeitados é fundamental, assim como assegurar que os povos indígenas tenham voz e representação nos processos de tomada de decisão que afetam suas vidas. Dessa forma, pode-se discutir a educação de forma eficaz.

A educação indígena, embora tenha avançado na valorização das identidades étnicas e no acesso a conhecimentos técnicos e científicos, ainda enfrenta desafios significativos. A implementação de programas bilíngues e interculturais, a formação de pessoal especializado e o reconhecimento dos direitos territoriais são passos essenciais para a inclusão e valorização desses povos.

Para reparar as injustiças históricas, é fundamental que os governos priorizem a educação indígena e garantam a participação ativa dos mesmos nos processos de tomada de decisão. Somente assim será possível construir uma sociedade mais justa e inclusiva, onde os povos originários possam preservar suas culturas e tradições, ao mesmo tempo em que se integram plenamente à sociedade contemporânea.

 

Referências Bibliográficas

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NEI ALBERTO PIES. Foto de notícia. 2022. Disponível em: <https://www.neipies.com/wp-content/uploads/2022/07/imagem-mae-preta-3-696x392.jpg>. Acesso em: 05 de out. 2024.

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SANTOS, Gersen Luciano dos. O Índio Brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos indígenas no Brasil. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade LACED/Museu Nacional, 2006.