Design de Livros, Livro e Ilustração: A História de Humanidade

Design Editorial 

O termo Design Gráfico só foi cunhado no século XX, por William Addison Dwiggins (1880-1956), para definir suas atividades profissionais, que eram trazer ordem estrutural e forma visual à comunicação impressa. Contudo, o “fazer design” vem desde os tempos antigos. Segundo Philip Baxter Meggs (1942-2002), já na pré-história havia a necessidade de dar formas visuais a ideias e conceitos, guardar o conhecimento em forma gráfica e trazer ordem e clareza às informações. Ao longo da história, essas atividades foram feitas por diversas pessoas, como os escribas, impressores e artistas. Entretanto, é difícil demarcar seu início , já que alguns autores apresentam teorias diferentes quanto a denominar que as peças que os antigos povos faziam eram design, além de existir a dificuldade em definir conceitualmente a área profissional do Design, como afirma Luiz Fetter (2011).

Figura 1 - Sarcófago de Aspalta, rei da Etiópia, c. 593 - 568 aC. As inscrições entalhadas neste sarcófago de granito demonstram a flexibilidade dos hieróglifos.

Fonte: Livro História do Design Gráfico, 2009.

O curso histórico, assim como seus registros, mostram que a atividade do design gráfico tem início desde a ancestralidade. Meggs (2009) conta que os egípcios tinham noções de design, seus papiros ilustrados apresentavam estruturas gráficas coerentes, com divisões, às vezes, retangulares para separar texto e ilustrações, e Aline Haluch (2013) diz que os editores da biblioteca de Alexandria estabeleciam normas e padrões para criar e reproduzir obras, que ainda eram feitas à mão, dessa forma é possível ver a herança que foi deixada e que atualmente ainda serve de suporte, como é o caso da utilização da Proporção Áurea em layouts.

Como visto, a antiguidade já fornecia um conhecimento em organização visual e textual, logo, Andrew Haslam  reitera: “Podemos dizer que os primeiros designers de livros foram os escribas egípcios, que redigiam seus textos em colunas e já faziam uso de ilustrações.” (2007, p. 6).

O design de livros pode ser considerado uma das primeiras atividades na História do Design Gráfico. O livro é o tipo de documentação mais antiga, registrando desde o conhecimento, as ideias e as crenças dos povos, e sua evolução está relacionada com a história da humanidade. Esses registros aconteceram primeiro em pedras de argila, em seguida no papiro, depois pergaminho, o códice – formato revolucionário que substitui o rolo e permitia a reunião de folhas que eram dobradas, costuradas e combinadas como em um livro moderno-, e, finalmente, em 200 a. C., surge o papel, na China. O livro atingiu outro nível na história quando passou de manuscrito para impresso, com a invenção da impressora por Johannes Gutenberg (-1468), por volta de 1450. Essa invenção fez o método de impressão ser mais rápido, industrializando e barateando os livros, que antes eram considerados artigos de luxo.. 

O design editorial é originado a partir dessa peça, o livro. Haslam (2007, p. 8) fala que “Os primeiros tipógrafos eram responsáveis pela organização e criação de layouts das páginas, além de cuidarem da reprodução do texto.”. Ao que Fetter (2011) responde “O que era o antigo tipógrafo senão um designer gráfico?”. O tipógrafo/design selecionava e organizava originais, confeccionava, traduzia, supervisionava e preparava, criando toda a página, distribuindo seu conteúdo visual e textual no espaço da página, ainda imprimia e dava o acabamento. 

Para Yolanda Zappaterra (2007), design editorial é mais facilmente diferenciado dos outros processos do design gráfico, como o marketing ou o design de embalagem, que se orientam principalmente para a promoção de um ponto de vista de um produto, já uma publicação editorial, pode entreter, informar, instruir, comunicar, educar ou desenvolver uma combinação de todas essas ações.

 

O Livro

O livro tem uma origem de mais de quatro mil anos, e é a forma mais antiga de documentar. A palavra em inglês “book” vem de uma palavra inglesa “bok” oriunda de “beech tree”, que significa faia, um tipo de árvore. Já a palavra em português “livro” vem do latim “líber”. 

“Os saxões e os germânicos usavam as tábuas de faia para escrever, sendo a definição literal de um livro “tábua para escrita”. O termo códex, usado para se referir aos livros ancestrais, como, por exemplo, os manuscritos bíblicos, têm origens similares. O termo caudex, é a versão em latim para “tronco de árvore”, de onde se tiravam as tábuas que serviram como superfície de escrita.” (Haslam, 2007, p.6).

Mas afinal, o que é um livro? Andrew Haslam, em “O Livro e o designer II” (ano), busca por uma definição para a palavra, dizendo que seria sensato e de grande ajuda pensar em um significado do que vem a ser um livro. Ele apresenta algumas opções de dicionários distintos. O “Concise Oxford Dictionary” (ano) declara o “livro” de duas formas:

  1. “Tratado portátil manuscrito ou impresso que preenche uma série de folhas encadernadas, vinculadas umas às outras”;

  2. “Composição literária que preencha um conjunto de folhas”.

Já o “Dicionário Houaiss” (ano) define: “coleção de folhas de papel, impressas ou não, cortadas, dobradas e reunidas em cadernos cujos dorsos são unidos por meio de cola, costura etc., formando um volume que se recobre com capa resistente”.

Conforme Haslam (2007), essas duas definições declaram a constituição física do livro como um objeto portátil com um conjunto de folhas e faz uma breve referência a questão literária e a escrita. A “Encyclopaedia Britannica” (ano) apresenta duas definições que mencionam o público leitor e o caráter de comunicação que o livro tem. Para ele, assim como para os autores mencionados no presente artigo, as definições descritas não fazem jus ao significado, a importância ou poder do livro. Com isso, Andrew apresenta uma definição própria do que é um livro: “Livro: um suporte portátil que consiste de uma série de páginas impressas e encadernadas que preserva, anuncia, expõe e transmite conhecimento ao público, ao longo do tempo e do espaço.” ( 2007, p.9)

O livro tem um grande poder de comunicação. Com seus registros ao longo da história da humanidade, ele é capaz de produzir um encontro entre duas mentes de épocas distantes. Por exemplo, um jovem leitor e admirador de artes, do século XXI, lendo  Leonardo da Vinci, um gênio do Renascimento, sendo influenciado pelas ideias do pintor, assim como da Vinci também buscou em livros conhecimento de seus antecessores, que influenciaram no homem que se tornou. Com base nos escritos de Haslam (2007), o livro tem sido um dos meios mais poderosos de transmitir ideias, além de mudar o curso do desenvolvimento intelectual, cultural e econômico da humanidade. 

É possível ver quão longe chega a sua influência considerando-se alguns exemplos: a “Bíblia Sagrada” (405), o “Corão” (632), o “Manifesto Comunista” (1848), de Karl Max. Assim como livros de Medicina, Ciência, Psicologia e Literatura, Teatro, tiveram base em títulos que serviram para criar e dar apoio aos seus fundamentos. Apesar de nem todas as influências tenham sido dirigidas para algo bom, é inegável o poder de propagação de ideias que o livro possui, atingindo as mentes das pessoas até hoje – como a religiões ou ideologias políticas -, mesmo que as ideias sejam retrógradas e difíceis de assimilar no período atual, é fato que o conhecimento/ideias precisam ser passados, para serem entendidos e reproduzidos, ou entendidos para não serem repetidos. Tudo isso, porém, seria apenas transitório sem os profissionais que são sempre esquecidos, o designer e o impressor de livros. 

 

Ilustração

Os egípcios já utilizavam ilustrações, combinado com palavras, para narrar uma história. Com suas crenças no pós-morte, viam a necessidade de comunicar o seu novo caminho para o além, registrando suas benevolências para escapar das punições pelos pecados, no chamado “Livro dos Mortos”. Segundo Meggs (2009), eles foram os primeiros a unir palavras com figuras, que juntas comunicavam informações. Emanuel Araújo (2008) também diz: 

“As ilustrações, que os egiptólogos chamam de vinhetas, nesse caso vinculavam-se estreitamente ao texto por sua eficácia prática [...] O desenho das ilustrações, por isso, é realmente notável, ao contrário do que se verifica em relação ao texto, escrito não raro com negligência, presumindo-se talvez que os defuntos fossem, na esmagadora maioria dos casos, agrafos, i.e., ‘analfabetos’; sua verdadeira orientação no mundo dos mortos dependeria, portanto, das imagens.” (Araújo, 2008, p.446).

Meggs (2009) apresenta que a ilustração foi o caminho inicial para os povos antigos se comunicarem. É notável que a ilustração era a forma de comunicação antes do surgimento da escrita - sendo a criação desta intimamente ligada aos desenhos figurativos da pré-história -, basta observar as pinturas rupestres, como as figuras, petróglifos ou sinais entalhados nas rochas para entender que foram elas que permitiram que os historiadores soubessem como viviam o povo pré-histórico. Alguns eventos narrados nas rochas, contando através do desenho, mostrando a necessidade do ser humano de registrar e se comunicar através de histórias, desde o mundo antigo.

Com a chegada da revolucionária imprensa de Gutenberg, o livro impresso se torna uma realidade irreversível, e a arte da ilustração teve de acompanhar essa transformação do novo suporte de escrita, então as ilustrações passaram a seguir a diagramação da página, tirando a suspeita que o leitor tem mais interesse pela imagem que pelo texto. 

De acordo com Araújo (2008), essa mudança abriu novas possibilidades para a arte da ilustração. Primeiro, a ilustração diminuiu de tamanho para ficar de acordo com o tamanho dos livros; segundo, os ilustradores precisaram se adaptar à multiplicidade de estilos de caracteres; terceiro, passou a haver a colaboração imediata entre o autor vivo e o ilustrador, acabando o simbolismo religioso e o código iconográfico existente na tradição manuscrita em benefício de imagens documentais, didáticas ou simplesmente de ocasião; quarto, criaram-se técnicas de reprodução adequadas ao livro impresso, a xilogravura, o talho-doce, litografia, e a fotografia.

Foi em 1461, em Bamberg, que Albrecht Pfister imprimiu o primeiro livro tipográfico com gravuras, a fábula de Ulrich Boner (1324-1349), “Der Edelstein” (“A Pedra Preciosa”). O uso das ilustrações xilográficas em livros tipográficos aumentou, criando assim um status aos ilustradores gráficos da época. O primeiro a ser identificado como ilustrador em um livro foi Erhard Reuwich (1445-1505), que introduziu a ilustração hachurada, por seu trabalho em “Perigrinationes in Montem Syon” (1486). Esse livro foi o primeiro a obter ilustrações desdobráveis. 

“Durante as notáveis primeiras décadas da tipografia, impressores e artistas gráficos alemães estabeleceram uma tradição nacional do livro ilustrado e divulgaram o novo meio de comunicação por toda a Europa e mesmo para o Novo Mundo.” (Meggs, 2009, p.125).

As ilustrações datadas dos séculos XV e XVI tinham uma qualidade inferior, as figuras ainda obedeciam ao velho padrão medieval dos livros tabulares, que tinham um forte apelo popular. Foram as ilustrações de Albrecht Dürer (1471-1528) que levaram a xilogravura a extrema perfeição, abandonando as concepções medievais e começando a enfatizar a ação dramática e o ilusionismo visual da pintura, renovando drasticamente o antigo repertório religioso. 

Enquanto a xilogravura (a gravura em relevo) se destacava nos fins do século XV, outro tipo de gravura surgia, a gravura a entalhe sobre placas de metal, gravava-se diretamente o desenho, entalhando a superfície de uma chapa ou placa de metal com buril ou estilete. A dificuldade que exigia a impressão e a má qualidade das placas de metal, de superfície irregular e espessura variável, levaram o talho-doce e a água-forte, fossem de início usados nos livros. No século XVI, enfim foi inventado a laminagem, o que permitiu a produção de placas finas e de superfície regular ideal para o entalhe do buril, assim a gravura em placas de metal (sobretudo com talho-doce) passou a dominar a ilustração do livro durante pelo menos dois séculos.

Na Inglaterra, Thomas Bewick (1753-1828) tirou da obscuridade a técnica de gravação da madeira “de topo”, até então só faziam xilogravuras usando a técnica da “madeira ao fio”. A técnica da “madeira ao fio” se diz do desenho feito a linha preta, resultando numa gravura negativa, já a técnica da “madeira de topo” se diz do desenho feito a linha branca, resultando numa gravura em positivo. 

Figura 2 - O corte de madeira utilizado era extraído da árvore no sentido dos veios da madeira, o que dificultava às ferramentas correr contra esses fios. A madeira de topo era cortada no sentido horizontal, anulando essa dificuldade.

Fonte: Instituto Brasil Solidário

Depois de Bewick utilizá-la, a gravação em madeira de topo ganhou certa popularidade, mas foi Gustave Doré (1833-1883), que levou a madeira de topo às últimas consequências, lhe dando caráter de obra de arte, ele realizava os desenhos de forma tão bem realizadas que davam a impressão de trabalho acabado, de tal forma que o gravador se limitava a uma tarefa totalmente técnica, afirma Araújo (2008).

Figura 2 - Gustave Doré, Charles Perrault, Contos, ilustrado por Gustave Doré, 1862

Fonte: Paris, Biblioteca Nacional da França, reserva de Livros Raros

Segundo Araújo (2008), no final do século XVIII, surgiu mais um processo de gravação e reprodução de imagens que iria revolucionar a ilustração e mais tarde as artes gráficas, a litografia[1]. Sua invenção se deve a Alois Senefelder (1771-1834), se conta que não encontrando editoras que imprimisse suas peças teatrais, começou a buscar por si uma forma de reprodução gráfica barata e rápida, esse resultado deu na litografia, inventada por ele entre 1796 a 1798. É a partir da litografia e da fotografia que surge a noção de reproduzir fielmente as imagens. A litografia é um dos mais bem-sucedidos processos de impressão do século XX.

A nova técnica rapidamente se expandiu pela Europa, em Londres, o próprio Senefelder, iniciou a reprodução, sob a supervisão do inventor, dos desenhos de Dürer para “Gebetbuch” (“Breviário”) (1514/15), de Maximiliano I (1459-1519), talvez o primeiro uso do processo litográfico para reprodução de livros. No século XIX, começou uma disputa entre autores e ilustradores, os primeiros achavam que seus textos serviam apenas como simples complemento das ilustrações, mas logo a união entre bons autores e bons ilustradores se mostrou mais do que eficaz para alcançarem grandes tiragens, como por exemplo, a editora Chapman and Hall fez uma proposta a Charles Dickens (1812-1870) para que escrevesse textos para os desenhos do humorista Robert Seymour (1798-1836), assim nasceu a famosa série “As Aventuras de Sr. Pickwick” (1836). “O sucesso do livro refletiu, de resto, a perfeita colaboração, através do texto e imagem, entre autor e ilustrador, recriando-se em conjunto um universo onde o humor se complementa com um refinado senso de observação.” (Araújo, 2008, p.476-477).

 

Nota de Rodapé

[1] O processo da gravura em plano ou na litografia (do grego “lithos”, “pedra”, e “gráphô”, “gravar, escrever, desenhar”) baseia-se na repulsão recíproca entre uma substância gordurosa e a água sobre um tipo especial de pedra então encontrável na Baviera em grandes depósitos naturais. “[...] Assim, à diferença da xilogravura [...], onde texto e ilustração se imprimem pelo entintamento das áreas altas, como num carimbo, e do talho-doce [...], o texto se imprime em relevo e a ilustração em áreas ‘escavadas’ nas quais as tintas ressalta, a litografia imprime o texto e a ilustração ao mesmo tempo, sob entintamento direto. (Araújo, 2008, p.473-475).”

[2] Xilografia é o termo técnico para a impressão a partir de uma superfície de madeira em relevo, uma técnica originária da Ásia. A tinta é aplicada na superfície da madeira com um rolo de borracha. O papel é pressionado sobre a matriz. As partes brancas corresponderão àquilo que foi cavado, enquanto as áreas de cor, às superfícies.

 

Referências Bibliográficas

ARAÚJO, Emanuel. A construção do livro. Lexikon; 2ª edição (22 de set. 2008). 640 páginas.

FETTER, Luiz. REVISTA, DESIGN EDITORIAL E RETÓRICA TIPOGRÁFICA: a experiência da revista Trip (1986-2010). 2011. 221 Dissertação (Mestre e Comunicação e informação) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, março de 2011. Disponível em: < https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/30193>. Acesso em: 16 de mar. 2021.

HASLAM, Andrew. Livro e o Designer II, O. Como Criar e Produzir Livros. Rosari; 2ª edição (01 de jan. 2007). 256 páginas.

HALUCH, Aline. Guia Prático De Design Editorial: Criando Livros Completos. 2AB; 1ª edição (01 de jan. 2013). 103 páginas.

MEGGS, Philip. História do Design Gráfico. Cosac & Naify; 1ª edição (14 de ago. 2009). 720 páginas.

ZAPPATERRA, Yolanda. Diseño editorial: Periódicos y revistas. Editorial Gustavo Gili, S.L.; 1ª edição (27 de fev. 2008). 208 páginas.