Um Brasil que Resiste com Glitter e Leques
Figura 1 - Participantes vestidos com as cores da bandeira do arco-íris em parada LGBTQIAPN+.
Fonte: FransA, 2019.
As tradições brasileiras não se limitam às festas juninas, aos rituais religiosos e às comidas típicas. Em um país atravessado por desigualdades históricas, a cultura LGBTQIAPN+[1] também construiu suas próprias tradições de resistência, celebração e afirmação política. O carnaval, os bailes e a cultura drag não são apenas festas ou performances: são trincheiras simbólicas e concretas de sobrevivência coletiva.
No Brasil, ser LGBTQIAPN+ ainda é um ato de coragem. O país lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans, segundo a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), (2024). Nesse cenário, as manifestações culturais dessa comunidade não apenas resistem: elas criam espaços seguros e reinventam formas de existir. E é nessa invenção que as tradições nascem e se perpetuam.
O carnaval, por exemplo, embora conhecido como festa popular nacional, sempre foi um território ocupado por corpos dissidentes. Das passistas trans nas escolas de samba às alas queer dos blocos de rua, a presença LGBTQIAPN+ é essencial e antiga. No entanto, muitas dessas participações foram invisibilizadas ou caricaturadas. Como aponta Renata Lima: “os corpos LGBTQIAPN+ desfilaram, mas raramente foram celebrados como protagonistas da festa” (p. 41, 2022).
Os bailes funk e os ballrooms[2] também criaram tradições profundas nas periferias brasileiras. Inspiradas pelas batalhas de voguing e pelas “casas” da cena ballroom americana, as comunidades queer brasileiras ressignificaram espaços urbanos e os transformaram em palcos de expressão, orgulho e pertencimento. Nessas pistas, não se dança apenas por diversão: dança-se para existir, para ser visto, para ser respeitado.
No centro de tudo isso, está a cultura drag, que não é uma invenção da televisão ou das redes sociais, mas uma prática que remonta ao teatro de revista, às boates da Lapa e aos palcos improvisados dos guetos. As drag queens brasileiras abriram caminhos que hoje se multiplicam nas escolas de samba, nos blocos, nas quebradas e nos festivais independentes.
Essas manifestações criaram tradições paralelas às oficiais, muitas vezes ignoradas pelas políticas públicas de cultura. A ausência de editais voltados para a produção cultural LGBTQIAPN+, a censura a artistas queer e a violência institucionalizada contra essas expressões mostram que a resistência ainda é parte inseparável da festa.
Falar de tradições brasileiras, portanto, exige reconhecer que as festas e formas de expressão da população LGBTQIAPN+ também são patrimônios culturais. Elas resistem à violência, ao preconceito e ao apagamento e seguem reinventando a ideia de Brasil. Um Brasil mais livre, mais colorido e mais justo.
Notas de Rodapé
[1] LGBTQIAPN+: sigla que representa lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer, intersexuais, assexuais, pansexuais, não-bináries e outras identidades de gênero e sexualidade.
[2] Ballroom: cultura originada nos Estados Unidos, especialmente entre pessoas negras e latinas LGBTQIAPN+, que envolve desfiles, danças (como o voguing) e competições performáticas em “casas”.
Referências Bibliográficas
ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Dossiê dos Assassinatos e Violências Contra Pessoas Trans no Brasil em 2023. Brasília: ANTRA, 2024. Disponível em: <https://antrabrasil.org>. Acesso em: 15 de jun. 2025.
LIMA, Renata. Carnaval e Resistência: A Presença LGBTQIAPN+ nos Blocos de Rua do Rio de Janeiro. Revista Corpo e Cultura, v. 9, n. 2, p. 35-49, 2022.
HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (org.). A invenção das tradições. 1. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.