Das vivências à tela: a reinvenção das tradições brasileiras por uma perspectiva periférica

Das vivências à tela: a reinvenção das tradições brasileiras por uma perspectiva periférica

Nas bordas das grandes cidades, a pintura contemporânea tem se afirmado como gesto de reinvenção das tradições culturais brasileiras. Longe de reproduzir imagens cristalizadas do passado, artistas periféricos elaboram novas narrativas visuais que ressignificam memórias coletivas e projetam identidades em constante transformação. Nas pinturas de Rafa Black, por exemplo, cor, forma e narrativa se entrelaçam ao cotidiano da quebrada, revelando a potência da arte periférica como dispositivo simbólico de resistência e afirmação. Inspirados em Eric Hobsbawm e Terence Ranger (1997), compreendemos que as tradições não permanecem estáticas: elas se reinventam no diálogo com o presente. Nesse horizonte, iniciativas como o Museu das Favelas reconhecem tais expressões como patrimônio vivo, pulsante e em movimento.

As tradições culturais de quebrada

As tradições brasileiras são práticas culturais dinâmicas, moldadas por vivências coletivas e resistências cotidianas. Nas periferias urbanas, elas se manifestam em diferentes linguagens: no grafite, no pixo, nas gírias, nos sons do funk e do rap, nas roupas, nos penteados, nos bailes e nos saberes herdados e adaptados às realidades das bordas. Essas manifestações não apenas resistem às tentativas de apagamento e deslegitimação, mas se reinventam constantemente, articulando o passado com o presente.

A perspectiva proposta por Hobsbawm e Ranger, em “A invenção das tradições” (1997), nos permite compreender que as tradições são, muitas vezes, invenções construídas para afirmar identidades e valores em contextos de mudança. Nas periferias, a cultura popular é reinventada como ferramenta de afirmação, denunciando desigualdades e reivindicando pertencimento. A pintura, nesse cenário, surge como uma ferramenta potente para expressar essas práticas e memórias.

A pintura como dispositivo de memória e registro

Diversos artistas periféricos vêm atualizando elementos simbólicos da cultura nacional a partir de novos olhares. Em vez de reproduzir imagens idealizadas do Brasil, ela parte da vivência real dos sujeitos periféricos para criar representações visuais autênticas. O que se vê são múltiplos corpos, cenas do cotidiano, afetos, espiritualidades e símbolos locais traduzidos em cor, forma e textura.

Mais que expressão estética, a pintura opera como um arquivo vivo da memória coletiva. Ela elabora e reconfigura narrativas que até então não se encontravam nos registros oficiais da cultura. Como afirmam Hobsbawm e Ranger (1997), a tradição não é apenas herança, mas uma construção contínua e, nesse processo, a arte periférica tem papel crucial.

Rafa Black: arte como pertencimento

Fig. 1 - “Os Lâmina de fogo” (2023).

Fonte: Rafa Black, 2023.

Rafa Black (São Paulo, 1991) é um artista cuja poética dialoga com os debates sobre tradição, símbolos, arte e periferia. Nascido no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, explora as linguagens da pintura e da gravura para abordar temas como identidade, afeto e coletividade. Suas obras valorizam as subjetividades negras e periféricas, evidenciadas em retratos sensíveis, cenas do cotidiano e referências diretas aos códigos da moda de rua, como as marcas como Lacoste, Bad Boy[1], de motos e elementos religiosos.

O trabalho de Rafa Black revela um território simbólico em disputa. Ele reinscreve os corpos negros na história da arte, subvertendo os silenciamentos institucionais e criando um novo vocabulário visual que celebra a resistência cotidiana. Sua obra também propõe novas narrativas sobre masculinidades negras e paternidades periféricas, ampliando as noções de tradição ao inserir experiências invisibilizadas no campo da arte. Para além dos símbolos, as cores utilizadas por Black rompem com estereótipos e reforçam a pluralidade das vivências negras, evidenciando a complexidade e a diversidade que compõem as subjetividades periféricas.[2]

Fig. 2 - “A bença antes do baile” (2024).

Fonte: Rafa Black, 2024

 

O Museu das Favelas e a valorização das tradições periféricas

A criação do Museu das Favelas representa um marco histórico na preservação e visibilidade das culturas das margens. Localizado no Pateo do Colégio, no Centro Histórico de São Paulo, o museu propõe uma abordagem afetiva sobre os territórios periféricos, reconhecendo suas expressões como potência criativa e  parte essencial do patrimônio cultural brasileiro.

Mais que um espaço expositivo, o Museu das Favelas atua como agente político e educativo, promovendo exposições, encontros e ações formativas que valorizam saberes ancestrais, práticas cotidianas e estéticas periféricas. Ao legitimar essas produções como cultura, o museu amplia o entendimento do que é tradição, reforçando a centralidade das favelas e periferias na construção do Brasil contemporâneo.

Para continuar pensando e (re)construindo

As obras de Rafa Black, revelam que tradição não é apenas repetição do passado, mas um campo de criação viva, atravessada por disputas e afetos. Esses artistas constroem visualidades próprias que ressignificam o território, afirmam identidades e ampliam o repertório simbólico da cultura nacional.

A partir das perspectivas de Hobsbawm e Ranger (1997), compreende-se que essas práticas não são apenas manifestações populares, mas formas complexas de produção de conhecimento e reinvenção simbólica. Ao reivindicar lugar na arte, esses sujeitos também reivindicam direito à memória, à representação e à autoria da história brasileira.

 

Nota de rodapé

[1] Lacoste e Badboy são marcas populares na moda de rua periférica, muitas vezes associadas à resistência estética das juventudes negras e faveladas. Sua presença em obras visuais indica a valorização de códigos de pertencimento desses territórios.

[2] Observação: embora o foco do texto esteja nas pinturas, Black é um artista que trabalha com outras técnicas, como fotografia e gravura.

Referências Bibliográficas

BLACK, Rafa. Portfólio do artista. Disponível em: <https://www.rafablack.com>. Acesso em: 19 de mai. 2025.

HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (orgs.). A invenção das tradições. Tradução de Celina Cardim Cavalcanti. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

MUSEU DAS FAVELAS. Sobre o museu. 2023. Disponível em: <https://www.museudasfavelas.org.br>. Acesso em: 19 de mai. 2025.

SILVA, Roberta. Arte e periferia: visualidades e resistências. São Paulo: Editora Pólen, 2021.