Maternidade: Uma Análise Ao Longo Da História
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O papel da maternidade na construção social
A condição de maternidade está historicamente atrelada ao poder, a submissão e dominação do sexo feminino, variando em aspectos de valoração e vivência de acordo com a sociedade, a cultura e o período histórico experienciado.
Ser mãe não era puramente um aspecto natural da condição de mulher, mas um fenômeno ideológico utilizado para ditar comportamentos ao longo da história. Tendo isso em vista, criou-se a concepção de que “ser mulher, em muitas sociedades, significa não só cumprir o papel de manutenção do corpo social, mas também o inevitável destino biológico: o de ser mãe” (Monteiro, 2021).
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A maternidade na Antiguidade
Na Grécia antiga e em Roma, a maternidade comumente era representada nas figuras mitológicas, com o culto de grandes deusas dotadas de atributos físicos e docilidade que remetiam à fertilidade e ao vigor reprodutivo.
Na Grécia, Ártemis, deusa da caça e da colheita, representava proteção para as crianças e as mulheres, especialmente no momento do parto. Além disso, Hera, esposa de Zeus, deusa dos casamentos, da família e patrona da fidelidade conjugal, é frequentemente representada com um romã em mãos, esta que simbolizava a fertilidade feminina. Em Roma, Juno, correspondente à Hera, é também a rainha dos deuses, protetora do casamento, das mulheres casadas, das crianças e dos lares, carregando a mesma simbologia.
Figura 1 - Estátua de mármore da deusa grega Hera ou a deusa romana Juno, segurando uma maçã de discórdia. A estátua está localizada no Parque do Palácio e Parque Complexo Estate de G. Galagan. Sokyryntsi aldeia, Ucrânia.
Fonte: A mente é maravilhosa, 2023. Foto por Magryt Artur.
Assim como em Esparta, em Roma, as mães podiam contribuir na formação espiritual, material, natural e nutricional dos seus filhos somente até os sete anos. Depois dessa idade, eles estavam sob tutela do Estado para que fossem preparados para o serviço militar. Por uma outra perspectiva, as meninas eram criadas mediante uma preparação para o casamento e a maternidade.
O casamento e a transmissão da tutela da mulher do pai para o marido, bem como a reprodução, era fundamental para a perpetuação das sociedades conquistadoras que Grécia e Roma representavam. A maternidade, então, apesar de ser uma forma da mulher se encaixar e ser respeitada, considerando o culto às deusas e à fertilidade, refletia também o domínio da sociedade patriarcal sob seus corpos.
Estudos apontam que as sociedades ocidentais atuais são frutos das sociedades mediterrâneas da antiguidade. Portanto, todo sistema patriarcal e a discussão acerca da maternidade como subjugo feminino parte das “pater famílias” romanas (Knibiehler apud Monteiro, 2021).
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A maternidade na Idade Média
A Idade Média se constituiu na influência cristã. Nesse contexto, vemos Maria de Nazaré, que, por ser ao mesmo tempo mãe e virgem, é a representante perfeita do ideal materno, terna e dedicada apenas à maternidade.
A valoração da figura de Maria se dá a partir do papel de “mãe”. Sendo assim, autores, como Yvonne Knibiehler, apontam que essa realidade compactua com a construção social da crença de que o único papel e objetivo pessoal da mulher seria o maternal.
Figura 2 - Essa escultura é uma réplica da obra Pietá de Michelangelo que se encontra na Basílica de São Pedro, em Roma. Essa obra foi doada à Catedral, onde ainda se encontra, pelo casal Paulo Xavier e Carmem Morum Xavier, chegou a Brasília no dia 21 de dezembro de 1989.
Fonte: Catedral Metropolitana de Brasília. Foto por Chico Ferreira, 2020.
Portanto, a maternidade no período medieval se subordina aos preceitos religiosos, bem como a visão da mulher, com sua racionalidade inferiorizada, sujeita à tutela da figura masculina mais próxima e interpretada como um objeto de submissão responsável pela condução do homem ao pecado, tal qual na narrativa do Pecado Original do Éden.
Nenhum valor especial era atribuído à maternidade e aos bebês. Os bebês eram alimentados pelas amas-de-leite e permaneciam sob os cuidados de terceiros até atingirem cerca de oito anos de idade, sem uma interação íntima com os seus pais. Após essa idade as crianças eram integradas às atividades domésticas, cooperando como força de trabalho e sendo consideradas adultos em miniatura (Ariès, 1981).
O nascimento dos filhos tinha como objeto a continuação do poder familiar ou suprimento das necessidades da época, como mão de obra. Para as meninas, a maternidade fazia parte da ascensão social, uma vez que o casamento estava atrelado à moeda de troca, já que a maioria objetivava status ou possibilidade de aumento do poder aquisitivo.
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A maternidade no Período Renascentista e Iluminista
Até os séculos XVII e XVIII, a troca de carícias e afeição entre mãe e filho, como a amamentação, não era algo moralmente aceito e havia sobre as mulheres a ameaça de perda do bebê diante dessa situação. Por isso, a prática de entregar filhos recém-nascidos à amas-de-leite era tão comum antes do Iluminismo. O ponto de ruptura se deu apenas a partir de novas filosofias, que apontavam para a necessidade do “amor materno”.
Historiadores apontam que por volta de 1760, a partir de obras de Jean Jacques Rousseau (1712-1778) e publicações médicas, houve uma “revolução de sentimentos” e uma reinvenção no conceito de maternidade, pelo fato de que esse e outros pensadores incentivaram que a participação materna deveria ser ativa no cuidado com as crianças e o amor a razão principal para o casamento, sendo os filhos o fruto desse amor, e não puramente um produto de reprodução da espécie. É nessa época que surge o mito do instinto materno, segundo o qual a maternidade era uma tendência feminina inata.
Nesse contexto, a infância marcada pelo abandono afetivo deu lugar à composição de uma “família nuclear”, com um marido, esposa e seus filhos, que deveriam ser atentamente zelados, criados e observados pela figura da mulher, tornando-a a “rainha do lar”. Esse zelo não se restringiria apenas ao atendimento das necessidades básicas do bebê, mas também a uma disponibilidade psíquica, a qual passa a ser denominada maternagem (Winnicott, 1956/2000).
Dentro desse cenário, no início do século XIX, a mulher adquire maior valorização social, passando a ser a responsável pelo lar e pela criação dos novos cidadãos (Moura, 2004). “É interessante notar que o mito do amor materno [...] continuará em voga mais de 200 anos depois de sua constituição, e serão a inserção da mulher no mercado do trabalho e [...] mudanças associadas ao feminismo, que mobilizarão o seu questionamento” (Sitta, 2023).
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A maternidade na contemporaneidade - revoluções sociais
No século XX, com as guerras mundiais, surgiu uma certa ascensão da figura feminina enquanto os homens lutavam e coube a elas, por muitos anos, o controle da sociedade e o papel de trabalhar. No entanto, com o fim dos conflitos, a repressão retornou e houve a realocação delas de volta ao seio familiar.
Nesse contexto, respondendo à pressão social para a maternidade, ainda compreendida como fator fundamental da condição da mulher, iniciam-se paralelamente dois tipos de movimentos feministas: o movimento radical, que associava à maternidade à submissão ao homem (Szapiro, 2008), e o movimento maternalista, que defendia a maternidade e a maternagem como sendo os principais papéis sociais femininos (Bock, 1991).
O movimento radical compreendia a maternidade e a maternagem como responsáveis pela subordinação feminina em relação aos homens, uma vez que a dependência do filho à mãe a impossibilitava de realizar outras atividades, como o trabalho.
Ainda no século XX, o advento e popularização dos métodos contraceptivos se tornou uma vitória à classe feminina, tendo a pílula anticoncepcional como símbolo da liberdade. Em meados deste século, propagou-se uma corrente de escritores dissertando a respeito da questão reprodutiva sob a ótica feminina e planejamento familiar. Assim, houve ascensão de uma onda de mulheres revolucionárias, críticas ao papel restritivo de gênero imposto socialmente.
Atualmente, com a inserção da mulher no mercado de trabalho, a priorização do planejamento familiar e a popularidade dos métodos contraceptivos, a maternidade não é mais a única prioridade da mulher, mas meramente uma delas, bem como podendo não ser. Quanto aos cuidados com a criança, eles não são mais exercidos unicamente pela mãe, sendo divididos com outras pessoas ou instituições, embora isso não seja sinônimo de abandono afetivo, como na Idade Média, dada a necessidade da participação da mulher no orçamento doméstico.
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Fatores que influenciam o conceito
A maneira como as sociedades lidam com as questões relativas à procriação e o cuidado maternal são resultado da interação entre o contexto, as transformações do pensamento social, o país e a cultura respectiva. Isto faz com que os significados atribuídos aos relacionamentos e o papel social feminino se modifiquem dinamicamente.
Portanto, a maternidade é vista de diversas maneiras, uma vez que a mulher pode se encontrar em diferentes realidades, como, por exemplo, se trabalha e a quantidade de horas, se o pai da criança também se faz presente, se tem estabilidade financeira, todos esses detalhes entram na forma em que a criança será criada e cuidada.
Referências Bibliográficas
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CATTONY, Luciana. Uma visão histórica sobre a maternidade. LinkedIn, 2019. Disponível em: <https://www.linkedin.com/pulse/uma-vis%C3%A3o-hist%C3%B3rica-sobre-maternidade-luciana-cattony//>. Acesso em: 10 de out. 2024.
GONÇALVES, Gabriele. Religião na Roma Antiga. Brasil Escola. Disponível em: <https://monografias.brasilescola.uol.com.br/historia/religiao-roma-antiga.htm>. Acesso em: 06 de out. 2024.
GRADVOHL, Silvia Mayumi Obana; OSIS, Maria José Duarte; MAKUCH, Maria Yolanda. Maternidade e formas de maternagem desde a Idade Média à atualidade. Periódicos de Psicologia, Porto Alegre, 2014, v.18, n.1, jun. 2014.
MONTEIRO, Luísa Amado. As mães de Roma: os usos e a valorização da maternidade na reforma moral augustana. GAÎA, v. 11, n. 1, 2021. Disponível em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/gaia/article/view/42288>. Acesso em: 06 de out. 2024.
RESENDE, Deborah Kopke. MATERNIDADE: UMA CONSTRUÇÃO HISTÓRICA E SOCIAL. Pretextos - Revista da Graduação em Psicologia da PUC Minas, v. 2, n. 4, p. 175 - 191, 05 de jun. 2017.
SITTA, Gabriela Dal Bosco. O pensamento sobre as mães e a maternidade: uma breve história. História e Cultura, v. 12, n. 1, 2023. Disponível em: <https://periodicos.franca.unesp.br/index.php/historiaecultura/article/view/3845>. Acesso em: 10 de out. 2024.