João Antônio e seu Conto-Reportagem “Testemunho de Cidade de Deus”: Uma Literatura Que Se Rala Nos Fatos
“A verdade é que gente se arruma ou se aperta, mora, se espreme há anos. Começa ficando, vai ficando e fica”. João Antônio
Figura 1 - “ABANDONO: Na Cidade de Deus as crianças não têm parque ou praça onde possam brincar” (1969).
Fonte: Arquivo Nacional, Correio da Manhã, outubro de 1969, BR RJANRIO PH.0.FOT.4266.
“‘O que tem mais aqui é homem querendo agarrar mulher dos outros. E é no pulso. Na marra. Na mão’ – suspira, abafada. – ‘Se se formasse uma favela outra vez, eu iria na frente, com uma bandeira e seria a primeira moradora.’ – Maria Isabel termina isso, gingando de um lado e outro, abrindo os braços. (Antônio, 1976, p.101).
O trecho transcrito - que expressa a vulnerabilidade das mulheres, moradoras da Cidade de Deus, nos anos 1960 - , foi extraído do texto “Testemunho de Cidade de Deus”, do escritor paulistano João Antônio (1937-1996), publicado na obra “Casa de Loucos”, em 1976. Trata-se de um conto-reportagem – gênero inaugurado pelo autor e que mescla a objetividade da reportagem com o trabalho da linguagem literária. Por meio de entrevistas com os habitantes da região que, desabrigados por causa de enchentes constantes[1], foram “convidados” a se alojarem no bairro carioca, distante e precário –, o jornalista/narrador nos relata o modo como o governo no estado do Rio de Janeiro, nos anos 1960, trata moradores pobres, vítimas de enchentes nos bairros centrais.
O jornalismo tem o papel de retratar a verdade, e a literatura, como representação artística do pensamento do homem ao longo da história, tem trazido para a ficção as vozes de cada tempo. Algumas dessas vozes soaram e soam mais amplas, talvez favorecidas pelo sistema político que possibilita que assim sejam ecoadas; outras, entretanto, permaneceram ocultas em porões, baús e prateleiras invisibilizadas, que pesquisadores, ao garimparem, encontram-nas e as fazem ser ouvidas.
São também pesquisadores que atestam que, durante o obscuro período ditatorial - de 1964 a 1985 -, principalmente, na primeira década, o país sofreu uma retração artística pela falta de investimento na educação e na cultura (Sussekind, 1985). Muitos escritores, então, não puderam publicar e abraçaram o jornalismo como alternativa de sobrevivência. Um desses autores foi João Antônio que, em 1963, publicou “Malagueta Perus e Bacanaço”. Premiado e elogiado pela crítica, o autor tem a escrita marcada por um olhar de denúncia à colonialidade e de resistência ao sistema ditatorial.
Os traumas da ditadura
De acordo com o psicanalista e escritor Jurandir Freire Costa (1944-), o Brasil sofreu dois grandes traumas em sua história: a colonização e a escravização. A primeira, a partir do século XVI, foi quando ocorreram as navegações e descobertas de territórios pelos colonizadores e a chegada deles ao Brasil: o colonialismo; a segunda, historicamente marcada a partir do mesmo século, quando da diáspora forjada e forçada dos povos africanos, ou seja, o deslocamento forçado dos povos africanos e a chegada deles pelos navios tumbeiros: a escravidão, que vergonhosamente estendeu-se até 1888. Ambas as atrocidades históricas permeadas de intensa violência e desumanidade (Cury, 2023, n.p.).
No conto-reportagem “Testemunho de Cidade de Deus”, o repórter/narrador retrata-nos a semelhante violência que ocorre nos espaços marginais. Já na introdução deste artigo, transcrevemos a fala da moradora Maria Isabel, sentindo-se insegura no bairro onde vive, vulnerável à violência sexual. Além desse tipo de agressão, há também, no texto, relatos de roubos, como na passagem: “Não tenho parente nenhum no Rio e pelo jeito vou ter de arrumar outro emprego ou ficar na rua. Melhor a rua do que aqui. Já não vou mais falar com a polícia porque os ladrões, tudo meu vizinho, disseram que, se eu reclamar, eles me matam” (Antônio, 1975, p. 97, grifo nosso).
O espaço violento e desumano lembra-nos de que “A modernidade/colonialidade é um paradigma de guerra que se coloca como justo e que faz o contexto colonial sempre violento”. (Maldonado-Torres, 2020, p. 38). A violência do espaço parte da violência do próprio poder, do estado:
“Em janeiro de 66 cumpria papel importante ao abrigar 1.200 famílias de favelados, vítimas das enchentes mais famosas e medonhas que o Rio de Janeiro conheceu nos dez últimos anos. Inundações, desabamentos, desastres, mortes tornando vários bairros cariocas, isolando e flagelando em dimensões de catástrofe. As favelas, claro, foram os ajuntamentos humanos atingidos mais de perto. No começo, o povo desabrigado foi para o Maracanãzinho. Depois, transferido para Cidade de Deus.” (Antônio, 1976, p. 98, grifo nosso).
Observamos, no grifo do excerto transcrito, que o escritor revela seu pensamento, tornando claro seu posicionamento crítico em relação à tomada de ação do governo do Rio de Janeiro referente ao tratamento dado às pessoas desabrigadas. Esse olhar crítico é constante na escrita do autor. Trataremos, então, apenas sobre algumas considerações partindo do conto selecionado.
Acreditamos que essa forma de denúncia de João Antônio é um modo de escrita decolonial, no sentido lato, tendo em vista, principalmente, o olhar de jornalista-narrador do autor, não só sensível, mas principalmente crítico que penetra nas veias marginais, na colonialidade enraizada na vida dos seres que habitam as margens sociais e traduz, a nós, leitores, por meio de uma linguagem própria à marginalidade, um timbre decolonial.
Alguns conceitos de estudos pós-coloniais
Pensamos que é importante esclarecer, ainda que brevemente, os conceitos de “Colonialismo”, “Colonialidade” e “Decolonialidade”, advindos de pesquisas publicadas a partir do final dos anos 1990, pelos estudiosos das Ciências Sociais e da Literatura como Walter Mignolo (1941-), Aníbal Quijano (1928-2018) e Maldonado Torres (1971-), entre outros.
O Colonialismo, como mencionamos, refere-se ao período histórico (século XVI) a partir do qual iniciou-se o processo de colonização dos territórios e as consequentes apropriações dos continentes invadidos. A Colonialidade marca o “lado obscuro e ‘necessário’ da Modernidade” (Mignolo, 2017, p.1) a apropriação, o domínio e o controle dos colonizadores sobre os recursos de subsistência dos seres subalternizados, como o lazer e o conhecimento, limitados pela gerência do mercado capitalista trazido pelos colonizadores. Tal colonialidade mantém-se ativa, principalmente nos discursos cotidianos e ainda reproduzidos, configurando-se numa estratégia global para desumanizar certos grupos considerados subalternos como (negros, indígenas, mulheres, mulheres negras, homossexuais, mendigos, entre outros) e cometer com eles arbitrariedades como, por exemplo, o isolamento da sociedade e a não oferta de oportunidades em nível de igualdade de condições.
A voz decolonial de João Antônio expressa-se por seus narradores que, ao mesmo tempo que criticam tais arbitrariedades, também demonstra ao leitor um olhar complacente para com os seres que sua narrativa nos retrata: mendigos, prostitutas, trabalhadores do subúrbio, jogadores, operários, crianças abandonadas entre outros subalternizados pela colonialidade no país.
Pelo olhar do autor e pela linguagem por ele adotada – “cujo estilo nos remete ao grito que vem de dentro” (Aguiar, 1997, p. 204), mesclando a linguagem culta com o vocabulário das ruas, o autor demonstra ao leitor o “paradigma decolonial” que
“[...] luta para promover a difusão de uma outra interpretação que coloque sobre sobre a mesa uma visão silenciada dos acontecimentos e que também mostre os limites de uma ideologia imperial que se apresenta como a verdadeira e única interpretação dos fatos.” (Mignolo, 2017, p. 57, tradução nossa).
Como mencionamos, a decolonialidade ganhou força no final dos anos 1990 (Ballestrin, 2013, p.89), como uma proposta de enfrentamento da colonialidade e do pensamento capitalista, como uma forma de resistência, um modo de desconstruir conceitos e padrões estabelecidos na colonialidade e que tanto subjugaram e ainda subjugam os povos oprimidos pelo poder do capitalismo trazido com tanta força após a colonização. O pensamento decolonial é, então, um processo de libertação social, cultural, política e econômica, já que, por meio dele, os indivíduos considerados subalternos, em lutas conjuntas – inclusive a luta literária –, buscam respeito, autonomia e direito a serem quem são, a recontarem a própria história sob a ótica de quem a vivenciou e ainda vivencia as consequências de seu esquecimento. É o que acreditamos que a literatura de João Antônio faz, mesmo que sua obra seja anterior ao surgimento dos estudos decoloniais.
Consideramos que João Antônio, ao mergulhar profundamente no mundo marginal e “esposar a intimidade dos seres que o habitam”, faz surgir, muitas vezes, pela voz do narrador, o timbre decolonial de suas personagens à margem. O autor, na prática, realiza “Um corpo-a-corpo com a literatura brasileira”, uma literatura que se rala nos fatos, e não que rela neles (Antônio, 1975, n.p.). João Antônio busca mostrar ao leitor que os habitantes de sua escrita, embora miseráveis e subalternizados pelo poder capitalista, são uma gente que “[...] se arruma ou se aperta, mora, se espreme há anos. Começa ficando, vai ficando e fica”. Sobreviver às injustiças é uma teimosia necessária, e contar essa sobrevivência é tarefa de autores engajados como João Antônio.
Notas de rodapé
[1] Nos anos 1960, o então governador Carlos Lacerda, para “limpar” áreas mais centrais da cidade do Rio de Janeiro, removeu diversos moradores para a Cidade de Deus, à época, um dos bairros periféricos mais violentos. A fim de justificar a arbitrariedade de remoção das pessoas para um bairro sem infraestrutura, o político usou argumentou que era para alocar as vítimas das enchentes num espaço mais seguro. (SOARES, 2010)
[2] “O que resta da ditadura?: ficções contemporâneas de autoria feminina”, aula ministrada em 08/08/2023, pela professora Maria Zilda Cury, no curso de Extensão Literatura e Políticas, promovido por GT ANPOLL Literatura Brasileira Contemporânea, PPGLit/UFSCar e PPGELI/UNESP (agosto a outubro/2023).
Referências bibliográficas
ANTÔNIO, J. Casa de loucos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.
ANTÔNIO, J. Malhação de Judas Carioca. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.
MIGNOLO, W. Colonialidade, o lado mais escuro da modernidade. Introdução de The Darker side of western modernity: global futures, decolonial options (Mignolo, 2011), traduzido por Marco Oliveira,. 2017. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/5540723/mod_resource/content/1/MIGNOLO%2C%20Walter.%20COLONIALIDADE%2C%20O%20lado%20mais%20escuro%20da%20modernidade.pdf. Acesso em: 18 de set. 2024.
SILVEIRA, Ênio. (contracapa). In: ANTÔNIO, J. Casa de loucos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976, n.p.
STEEN, Edla. Van. Retratos. Grandes escritores brasileiros falam a vida e a obra. Porto Alegre: L&PM, 2013.
SOARES, Eduardo Coelho Maxnuck. As intervenções urbanas na cidade do Rio de Janeiro e o governo Carlos Lacerda no recém criado Estado da Guanabara (1960/65). Monografia de Bacharelado, 2010. Disponível em: https://pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/2014/1/ECMSoares.pdf. Acesso em: 20 de set. 2024.
SUSSEKIND, Flora. Literatura e vida literária: polêmicas, diários e retratos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.